Richard Sennett constrói uma longa e brilhante narrativa para explicar o que representa a idéia de espaço público. Reproduzindo a história, uma de suas primeiras descobertas é a de que a
palavra “público” implica naquilo que trata do que é bom ao conjunto urbano, que trata do bem comum. Noutro momento, o “público” se refere ao que está acessível a todos, ou que está “aberto” aos olhos de todos, que pode ser observado, livremente; estas duas definições apresentadas tratam da história da palavra “público” na língua inglesa. Mas o autor demonstra que no francês o termo tem sentido muito próximo, senão idêntico. Tratando do Renascimento, ele nos informa que a palavra era usada genericamente, se referindo tanto ao bem comum (pessoas), como do corpo político (atividade política). A palavra “le public”, com o tempo passou a designar um lugar onde pessoas desconhecidas agiam em sociabilidade, se encontravam espontaneamente para se desencontrarem em seguida. Sennett, para permitir a compreensão do que seria este lugar, ou como se dariam estas relações entre estranhos que se encontram, recorre à antiga tradição do teatrum mundi. Nela, Sennett explica que está contida a idéia de que as relações
sociais são na verdade, além de serem meras relações automáticas, representações em forma de atuação teatral. O modo como um homem se dirige ao outro e com este se relaciona não é um ato “livre”, mas um ato determinado por uma atuação teatral, uma representação de um “papel”. O teatro mundi condiciona que o encontro de pessoas num espaço (público ou privado) ocorre e se desenrola pela atuação
teatral de ambas as partes que se envolvem neste encontro. Mas ocorre que, com explica Sennett, o agir como
ator implica na capacidade de se “integrar às relações sociais”, de imaginar estas relações na vida pública, de vestir a “máscara” do teatrum aprimorando seu comportamento; é na utilização da “máscara” que o ser social se integra ao todo social. Demonstrando como se dá o contrário deste comportamento, Sennett diz que “(...) no mundo de Goffman, as pessoas se comportam, mas não têm experiência;” e continua, “(...) os autores da escola de Goffman apresentam menos um teoria geral da sociedade do que um primeiro sintoma do mal-estar moderno que configura o tema deste livro,” e ainda segue, “(...) incapacidade de imaginar relações sociais que suscitem muita paixão, uma imaginação da vida pública na qual as pessoas se comportam e controlam seu
comportamento somente por meio do retraimento, ‘conciliação’ e ‘apaziguamento’”. Em tempos áureos da vida pública, Sennett lembra que na Londres do século XVIII, a relação entre palco e rua já não era mera metáfora, e este comportamento implicava na necessidade das pessoas serem sociáveis umas com as outras. O que ocorre nesta representação teatral é que o ator que representa tem de ter crença nas convenções. Como o ator no palco do teatro quando atua está obrigado a acreditar no personagem, mesmo que seja apenas pelo momento da atuação, a atuação do homem do teatrum mundi condiciona este homem à existência de certa fé nas convenções, para que possam ter sua real e eficiente expressividade. Esta crença exige um distanciamento entre vida pública e vida privada. Neste distanciamento, a vida privada, subjetiva, não se sobrepõe para determinar as convenções, mas deixa à vida pública que o faça; isto permite que a máscara da atuação se sobreponha ao ser individual, este passa a atuar com a máscara, não deixando que sua “autodeterminação”, ou a vida íntima condicione o que será crível ou não crível; por isto a vida pública e a máscara da atuação nesta vida pública exigem certa crença nas convenções ou em seus projetos. Isto é o contrário do que se dá no contemporâneo; o desengajamento, como vimos, retira do ator a capacidade de ter fé nas instituições públicas, em qualquer projeto dessas, se é que
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