" Bruno" - um estudo clínico sobre
psicomotricidade Bruno é uma criança com sete anos e meio de idade quando começa na
terapia, ora a sua idade já é considerada um pouco avançada para conseguir resultados eficazes e a curto prazo. No entanto, Bernard vai debruçar-se sobre o caso, baseando-se na terapia da psicomotricidade relacional. Segundo Bernard, esta técnica não se aprende nos livros, consiste num método, num modo de estabelecer uma comunicação mais humana, mais verdadeira com qualquer pessoa. Exige da parte do terapeuta para além de um vasto conhecimento teórico (psicologia, fisiologia, psicopedagogia,
psicopatologia, etc.), um profundo conhecimento de si próprio, ou seja, na relação com o seu próprio corpo, com o
objecto, com o outro e com o grupo e, capaz de dominar as sua pulsões, é fundamental que o terapeuta tenha vivenciado estas situações, para que a sua relação com o paciente, neste caso, o Bruno, seja o mais autêntico possível. Bernard considera que, os jogos e brincadeiras têm uma importância capital na 1 ª etapa de desenvolvimento da criança, ou seja, entre os 0 e 3 anos de idade, período em que se cristaliza a personalidade do indivíduo. Através dos jogos a criança vai projectar espontaneamente os seus conflitos interiores mais profundos e vivê-los simbolicamente, ou seja a criança tem a possibilidade de vivenciar simbolicamente aquilo que na realidade ela não pode viver. Esta possibilidade de a criança poder projectar tudo o que tem recalcado é de extrema importância, pois, a partir do momento em que ela percebe que pode, por exemplo, matar simbolicamente, ela começa a perceber que não tem necessidade de concretizar isso na realidade. A mãe de Bruno teve uma gravidez complicada, sofrendo várias hemorragias, sendo o parto provocado, após 15 dias da data prevista. Durante o parto sofreu várias síncopes, Bruno embora se encontrasse em posição pélvica, o parto decorreu normalmente, recorrendo à ajuda do fórceps sob anestesia geral. Bruno foi ferido na têmpora direita. Embora não apresentasse indícios de atraso devido aos seus reflexos serem normais, verificou-se um atraso no seu desenvolvimento motor. Foi só aos 19 meses que conseguiu sentar-se sozinho, os seus primeiros passos ocorreram só aos 20 meses, começou a andar sozinho aos 2 anos e levantar-se sozinho aos 34 meses. As suas dificuldades motoras estão relacionadas com a lesão cerebral. Aos 2 anos e meio Bruno tem três episódios de recusa deliberada, agressiva e prolongada, recusando-se a andar, seguindo-se posteriormente fases de apatia e alheamento. A sua saúde física decorreu normalmente, tendo as doenças normais próprias da idade (sarampo, varicela…). Os seus hábitos de higiene constituiu um sério problema, Bruno tornava-se violento, gritava e tinha crises “convulsivas”, após estes episódios seguiam-se longos períodos de passividade. Bruno não sabia manifestar preferência ou recusa perante, por exemplo, um prato de comida. Não demonstrava qualquer interesse pelos objectos, nem em interagir com os outros, limitava-se apenas a observar os jogos dos outros e tudo aquilo que lhe despertava interesse, ou seja, era apenas um observador não participante, logo a comunicação era inexistente. Bruno até começar a sua terapia, teve um percurso muito atribulado, consultou vários profissionais, pediatras, psiquiatras, frequentou sessões de ortofonia, mas infelizmente não teve grande evolução. Bernard vai reeducar Bruno debruçando-se sobre os seus pontos fortes, não evidenciado desta forma as suas fragilidades e impotências, “défices”, desta forma Bruno vai sentir-se a pouco e pouco mais confiante e com mais coragem para expressar-se livremente sem medos e receios de ser repreendido ou criticado. Bernard vai então identificar o que há de positivo no
comportamento de Bruno: a posição de gatas; o interesse de Bruno pelo corpo do outro, os gritos de Bruno. Depois vai tentar estabelecer uma comunicação imitando Bruno, aceitando desta forma a sua dinâmica, assim Bruno passa a ter o papel de chefe, estabelecendo as regras do
jogo. É durante esta primeira fase que nasce, desenvolve-se e estrutura-se a carga afectiva, a qual está ligada ao prazer corporal primitiva da criança (
sexualidade). A carga afectiva é o fio condutor que vai permitir o desenvolvimento e a evolução da comunicação. A terapia psicomotora durou cerca de três anos, os quais foram divididos por diferentes fases.
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