Nós
escolhemos livremente todas as nossas reações?
Porque algumas reações parecem
ser instantâneas? Porque outras parecem ser incontroláveis? Outras ainda
totalmente contrárias ao que acreditamos em nosso íntimo? O pesquisador e
escritor Augusto Cury, após mais de 17 anos de estudo sobre o funcionamento da
mente humana, afirma que nos bastidores inconscientes de nossa inteligência
existe uma série de mecanismos psicodinâmicos que financiam o funcionamento de
nossa mente. Dentre as descobertas mais importantes está a constatação dos
quatro principais grandes fenômenos que são responsáveis pelo financiamento de
nossos
pensamentos e emoções. O segundo na lista é a Autochecagem da Memória. A Autochecagem é um fenômeno intrapsíquico inconsciente responsável
pela leitura instantânea de nossa memória – a partir de um determinado estímulo
– produzindo as primeiras cadeias de pensamentos e as primeiras reações
emocionais que logo após passam a ser moldadas, temperadas, manipuladas,
redirecionadas, lapidadas, criticadas por nós em um nível consciente. Entrando
em seu quarto e, ao deitar na cama, você percebe que existe uma cobra peçonhenta
por baixo dos lençóis. Pela teoria da Inteligência Multifocal (esboçada no
livro de mesmo nome, o qual também fiz um resumo), a Autochecagem da Memória,
em milésimos de segundos, captura a imagem da cobra e procura, entre bilhões de
arquivos de nossa memória provenientes de experiências e aprendizagens de nossa
vida inteira, as informações sobre tal estímulo e o que tal estímulo representa
- isso é uma cobra, o que significa ter
uma cobra tão perto de mim? - imediatamente essa autochecagem gera as
primeiras reações emocionais: pânico, susto, medo, sensação de morte e tragédia,
pavor e sentimento de total vulnerabilidade pessoal por ter a consciência de
que por obra de pura sorte ou de uma força maior você não foi picado por ela.
Após mais alguns segundos você toma consciência do peso das circunstâncias em
que tal fato ocorreu - ela estava no nosso
quarto, em cima de nossa cama, enrolada nos lençóis exatamente do lado em que
minha esposa dorme e no qual minha filha costuma me acordar pela manhã. Começam
a vir pensamentos do que talvez tivesse acontecido caso a cobra lhe picasse, a
dor das presas, a sensação da saliva e da língua do animal em contato com sua
pele. Você talvez nunca tenha sido picado por uma cobra antes, mas se a idéia
prévia, a imagem que você possui desse animal for semelhante a uma pessoa fria,
má e sarcástica, esse “pré” “conceito”, dado todo o casulo intelecto-emocional
em que você se encontra no momento, será checado através de um canal de
navegação pelos arquivos da memória, canal esse possível e temporariamente produzido
pelo específico fluxo dinâmico intelecto-emocional em que você se encontra. Poderá
imaginar coisas típicas de desenho animado “a cobra se expressando de vários
modos: o olhar da cobra enquanto inoculava o veneno, os movimentos que ela
fazia dando aquela idéia de “peguei você!”, quem sabe após lhe envenenar ou mesmo
enquanto as presas estavam cravadas em sua pele, ela estaria rindo de deleite.
De repente, após mais alguns instantes, lhe
vem a constatação do quanto você viajou sem sair do lugar, do quanto aquilo
mexeu com seus sentimentos, tudo proveniente de um autofluxo de pensamentos e
emoções no qual a consciência de uma idéia ou possibilidade acaba levando à checagem
de outra, e outra, e outra, num efeito dominó muitas das vezes sem sua
supervisão total das coisas.
Apesar
de um exemplo pobre, a idéia é demonstrar que a Autochecagem da Memória, é um
fenômeno inconsciente que primeiramente checa todos os estímulos, sejam
provenientes de nosso organismo, de nosso ambiente ou mesmo de nossos
pensamentos e emoções pré-existentes gerando, em milésimos de segundo, as
primeiras novas reações emocionais e os primeiros novos pensamentos com os
quais nós, em nível consciente, devemos interagir nos momentos posteriores.