Estava folheando
uma "Vogue" quando vi a reprodução da obra da artista plástica Lenora de Barros. A obra, exposta em 2002, chama-se "
Procuro-me". Reproduz os famosos cartazes de "Procura-se" e mostra a foto quadruplicada de uma mulher, com a mesma expressão, só que em cada uma das quatro fotos ela está com
Um cabelo diferente, mudando por completo seu semblante. Um trabalho comunicativo e atual. Estamos todos foragidos de nós mesmos.
A minha descoberta tardia dessa obra aconteceu numa semana em que tive algumas conversas sobre esse mesmo tema: a perda de identidade característica deste início de século. Programas de computador que tentam reproduzir a vida real. como The Sims e o elaborado Second Life, são sintomas dessa solidão. Este último permite que você se recrie: pode escolher sua aparência física, construir uma casa, comprar um carro, manter relações de amizade e de amor - ou com prostitutas, se quiser - tudo como se fosse de verdade, incluindo aí transações financeiras com uma moeda virtual que compra com seu realíssimo cartão de crédito. Tem gente por trás desse jogo que está ficando milionário. No exterior, já é matéria de discussão: passar o dia inteiro na frente do computador "vivendo" uma segunda vida, com outro nome, outros hábitos, outras ambições, é brincadeira ou algo grave?
Bobagem ou não, é o sintoma de uma mudança profunda nas relações humanas, se é que ainda estamos nos relacionando. As pessoas estão cada vez mais voltadas para seu umbigo, seu quarto-e-sala, suas fantasias, estimuladas por um mundo ilusório (celebridades, sucesso, juventude eterna), e acabam hipnotizadas na frente de uma tela, vivendo uma mentira: faz-deconta que sou rico, que sou bonito, que estou amando, que me amam também. Quando chegarem naquele estágio da vida em que não é mais possível recomeçar nada, vão descobrir que fizeram o quê dos anos vividos? Um game. Viraram avatares e esqueceram de existir para valer .
O.K., este texto está meio apocalíptico. Sei que é possível equilibrar o entusiasmo pelas novidades tecnológicas e pela vida cotidiana, mas há uma ameaça incômoda no ar: a da pobreza emocional. As pessoas já não estão procurando os outros, estão desistindo de estabelecer conexões vitais. Desconfiadas de tudo e de todos, optam por um plano B: procuram-se a si mesmas. O que seria algo a se comemorar, fosse esse "procuro-me" um processo de autoconhecimento, e não um ato de desespero e farsa.
Procuro-me com outro rosto, uma máscara sem rugas, sem vincos, sem história. Procuro-me em beijos sem gosto, em contatos sem envolvimento. Procuro-me porque perdi a memória: já não sei o que quero fazer (só faço o que me sugerem), já não sei fazer amizades (só pelo Orkut), já não sei a quem obedecer (recebo ordens o dia inteiro: compre, pague, use, teste, faça, seja). Procuro-me porque não me enquadro em nenhuma tribo, não pertenço a nada que seja coletivo, e isso me isola. Procuro-me porque as pessoas entram e saem da minha vida de forma tão rápida que nem consigo deixar nelas uma saudade, e quando ninguém sente falta da gente, é uma espécie de morte. Procuro-me porque não sou representado por ninguém na política, estou desaparecido para o governo, que cidadão sou eu? Procuro-me porque não encontro nada que seja verdadeiramente real com o que eu possa me identificar. Não é o apocalípse, mas o nirvana também não.
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