Qual o papel da filosofia? O pior homem é o que pensa que não tem filosofia, ou que a confunde com o pragmatismo diário de
uma vida sem sentido violada que está. A maior indecência é a praticada consigo mesmo; tudo o mais é conseqüência. O que mente para si mesmo abre vácuos abismais em seu ser que qualquer parca estupidez e palavreado pomposo lhe corrompe e o avilta para sempre, como uma droga ou um vírus que lhe suga a mente. A filosofia sem prática é inócua; a prática da vida sem filosofia é desumana! Usando-se a filosofia pode-se almejar “suspender o real” para fora e para além das categorias e conceitos entronizados. É claro que ela pode igualmente ser usada pelos servos da escuridão para instaurar e sempre renovar ardilosamente a servidão ao arbítrio do poder dos que se acham superiores – estão, eventualmente, superiores, mas não passam de pífias sombras da noite. Mas para muitos, a filosofia é instrumento a quebrar espelhos, a destruir imagens e formatar vórtices que levam certos espíritos verdadeiramente poderosos e humanos a escolherem afinal o “bem”, em si, para si, sem impedir que todos assim possam estoicamente trilhar seu caminho de luz nesta existência. Estes fazem da filosofia a força vital para que sua “vontade de potência”, afinal, possa alcançar os frutos de querer viver agora o que o poder do universo reservou para cada um. Isto, obviamente, pela filosofia que envolve a motivação deste trabalho, não pode prescindir de “máximas morais” que dignifiquem o “vir a ser” de cada Ser e coisa vivente.
No fundo, como Bragança de Miranda concluí (2004:305), o
anarquismo é uma “ciência da vida” preocupada em fugir do governo, mas não se refugia simplesmente em desconstruir as ilusões da filosofia; o que está em causa é o gozo da vida já pelo desvelar da “aparente densidade dos objetos e das coisas”. O importante é que a antifilosofia apregoada por Stirner não é exatamente o fim dela, mas “usar seus conceitos filosóficos para os suspender” (2004: 312) e recriar algo que valorize obstinadamente a existência e sua natureza. Eis o que Proudhon escreveu em 1840: “Buscamos a análise daqueles elementos que são verdadeiros, e estão em harmonia coma as leis da natureza e da sociedade, sem considerar o resto. O resultado mostra uma expressão adequada da forma natural da sociedade humana, isto é, a
liberdade” (1981:63).
O fato é que todos temos a noção de que sem delitos não há Estado. Assim, por dois motivos podemos ter em conta o indivíduo anárquico como um homem decente em potencial: 1. o Estado, o sistema de direito e a sociedade de forma geral, são compostos por uma legião de patifes, uma multidão de falsários e mentirosos, ladrões e assassinos de toda espécie, corruptos e prevaricadores, parasitas da vida boa e vampiros da liberdade, e isto pouco ou nada tem a ver com a pobreza, a não ser aquela que importa, a pobreza de espírito – o Estado e a juridicidade precisa dessa escória; 2. logo, não cometendo atos tais ou participando desta sujeira político-jurídica, enfraquece-se o Estado e fortalece-se o direito subjetivo com lastros fortes no direito natural. Existe uma moral aqui, claramente. E envolve um conjunto maior de indivíduos! Nas palavras de Stirner: “Estou eu então a recusar tudo aquilo que o liberalismo conquistou com todo seu esforço? Longe de mim querer que alguma coisa conquistada se perca de novo! Eu apenas volto a olhar para mim próprio, depois de o liberalismo ter libertado o homem, para me dizer francamente: Aquilo que o homem parece ter conquistado, foi de fato uma conquista só para mim” (2004:117). Quer isto dizer que Stirner e mesmo as correntes anarquistas menos "individualistas” estejam a defender o liberalismo? Não, logicamente.
Apenas a história não volta atrás (materialismo histórico dialético). Viver como Um único deve ser possível no Estado de direito, pois é a partir daí que estão concretamente dadas as possibilidades de ir adiante, de olhar “atrás do