O autor reflete sobre o seu trabalho de investigação acerca dos preconceitos lingüísticos, partindo das considerações feitas nos Parâmetros Curriculares Nacionais no que diz respeito ao impacto que as variedades lingüísticas exercem sobre as propostas atuais de ensino da língua nas escolas.
Os PCN´s direcionam esta análise do
preconceito apenas quanto às variedades lingüísticas trazida pelo aluno à sala de aula, que levam os professores a julgarem que dados “vícios na linguagem” tornam nulas suas capacidades comunicativas. O autor expande estas considerações ao constatar que o preconceito lingüístico, visto sob este ângulo, apenas mascara a verdadeira face de um preconceito que desencadeia uma complexo processo de exclusão social de classes mais desprivilegiadas. A língua trazida pelos alunos é reflexo do seu ambiente sócio-familiar, principalmente quando estes estão inseridos em um contexto econômico desfavorável (famílias de baixa renda e escolaridade), logo, a discriminação de sua língua esconde a discriminação quanto a sua condição social.
Quando se coloca a língua da elite, considerada a culta, em patamar superior ao da língua popular, apenas acentua-se os problemas já existentes em um país como o Brasil, cuja distribuição de renda é uma das mais desproporcionais e injustas. Aumentam-se os abismos que separa os mais ricos dos mais
pobres, e juntamente como o principal fator de segregação – o dinheiro – acrescenta-se também o
idioma nacional, separando os que
falam bem (os ricos) dos que falam mal (os pobres).
O maior problema apontado é que, dentro da própria língua dos considerados cultos, muitas formas tidas como padrão na norma gramatical já não são assimiladas pela fala da maioria (cerca de 90%) destes falantes cultos, pois até mesmo para eles, estas são formas desconhecidas que soam estranhamente e cujas regras (mesmo que já tenham sido lhes ensinadas) não são mais processadas em suas falas. Isto demonstra o outro lado do preconceito, em que, se por um lado a elite discrimina os pobres por sua fala simplória, por outro lado, esta mesma elite se auto-discrimina por achar que o português ideal (aquele
falado em Portugal) é muito difícil e que pessoas mais estudadas não conseguem dominá-lo completamente. Esta insegurança reflete a mentalidade colonial até hoje presente na
sociedade brasileira, que torna a independência política e a democracia um processo relativo e incompleto, já que até hoje, não conseguimos nos livrar da dependência e escravidão lingüística.
Diante disso, o desafio dos professores de português é o de compreender e disseminar a idéia de que a língua portuguesa, da forma como tem sido concebido pelas gramáticas e pela escola, é uma língua escrita. Não se pode inferiorizar o outro e a si próprio se na
Fala, a língua materna não corresponde mais exatamente ao português padrão, pois o que se tem falado de fato é o vernáculo brasileiro. Como qualquer língua, este vernáculo tem todas peculiaridades de um idioma que diacronicamente assimilou e agregou novos elementos, abolindo outros, até que chegou a sua constituição atual, sujeito a ainda a uma constante possibilidade de mutação.
Acima de tudo, estas reflexões são mais importantes sob o aspecto de se dissolver estas ideologias lingüísticas, que resultam em discriminação e exclusão de uma sociedade estratificada, do que sob a perspectiva de se mudar nos compêndios gramaticais e nas grades curriculares, o padrão normativo téorico por uma padrão vernacular prático.
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