A formação e a difusão da língua
portuguesa no território
brasileiro.
(Pressupostos enunciados por Rosa Virgínia Mattos e
Silva)
Da América à Ásia, cada povo que fala hoje o português
o modelou, o recriou à sua imagem. Nenhum exemplo é mais relevante do que o do
Brasil. (Eduardo Lourenço)
A “modelagem brasileira” ––
em seu texto “A generalizada difusão da língua portuguesa no território
brasileiro”, a autora inicia destrinchando as duas epígrafes colocadas no
texto. Pode-se sintetizar delas a questão que a autora defende:
A história de uma língua se esclarece pela história social e
política do povo que usa essa língua. Portanto, a formação do português
brasileiro deve ser compreendida no contexto sócio-histórico do Brasil. “Com base em fatores sócio-históricos ou da história social
brasileira, a ‘voz’ africana e dos afro-descendentes, adquirindo a língua
dos colonizadores como língua segunda, na oralidade do quotidiano
diversificado e multifacetado, sem o controle normativizador explícito da
escolarização, reestruturou o português europeu, que no Brasil começa a
chegar em 1500 e sucessivamente ao
longo do período colonial.
(A) A demografia histórica do Brasil do século
XVI ao XIX
A partir dos estudos Albeto
Mussa, sobre a população brasileira do século XVI ao XIX, podemos ressaltar
que: até meados do século XIX a etnia branca estava representada, quase que
exclusivamente, pelos portugueses e luso-descendentes. Os “índios integrados”
(contáveis) decresceram –– devido a doenças transmitidas pelos europeus ou por
chacinas intencionais durante o processo inicial de colonização –– de 50% no
século XVI para 2% na metade do século XIX. Os índios não integrados
esconderam-se, fugidos, nos interiores
brasileiros, já que a colonização se iniciou ao longo do litoral atlântico,
entre os limites do
rio Grande do Norte e, ao Sul, o limite da bacia do rio do
Prata.
No que diz respeito às línguas indígenas, admite-se
que, no início da colonização portuguesa, se usavam mais de mil línguas
indígenas, de vários troncos e famílias lingüísticas. Aryon Rodrigues propõe
que teriam sido, nesse início 1.175, das quais 85% desapareceram no período
colonial, depois e continuaram a desaparecer em razão dos fatores acima citados
(integração ou violência). Dos calculados 5 milhões de indígenas em 1500,
admite-se 800.000 ao fim da colonização,
talvez 300.000 no fim do Império e cera de 262.000 hoje.
Havia uma certa homogeneidade cultural e lingüística
ao longo do litoral, a partir do Rio Grande do Norte e na Bacia do
Paraná/Paraguai, em que predominavam povos indígenas do tronco tupi, sobretudo
da família lingüística tupi-guarani e, em vários pontos litorâneos, os
tupinambás e os tupiniquins, inimigos históricos, mas com línguas da família
tupi-guarani muito semelhantes. Com essa homegeneidade litorânea tornou-se
possível a gramaticização da Língua mais falada na costa do Brasil (
gramática do Pe. José de Anchieta, publicada em 1595). Essa língua mais usada na costa do
Brasil estará na base do que, só no século XVIII, veio a se designar de língua
geral. Aryon Rodrigues distingue a língua geral paulista –– de base tupiniquim
e/ou guarani no século XVII –– e a
língua geral amazônica, de base tupinambá, cujo remanescente é o nheengatu.
Havia também as línguas do tronco macro-jê, cujos falantes (os tapuias)
ocuparam os interiores brasileiros do nordeste, pelo centro-oeste até São Paulo
e mais para o Sul do Brasil.
A partir de 1549, com o
primeiro governador geral do Brasil, institucionaliza-se o tréfico de escravos
que perdurará até ao longo do século XIX. Diz-se que chegaram ao Brasil entre 4
e 14 milhões de escravos e cerca de 300 línguas africanas. Ao findar o primeiro
século colonial, a presença africana perfazia 42% da população.
Só na segunda metade do século XIX, com apolí
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