Você entra em um restaurante e sabe que vai pagar uma grana da pesada. A escolha foi sua. Você não espera que um milagre aconteça ou que os sinos toquem e anunciem que você, milésimo freguês, será agraciado com uma refeição grátis. Não. Nesse tipo de restaurante, isso não vai acontecer. A conta será alta, mas você acredita que nenhum dos ali presentes poupará esforços para servi-lo e que a turma da cozinha está eufórica para lhe oferecer uma das melhores refeições que já fez.
Abro um parêntese sem abrir: será que eles pensam mesmo assim? Ou será que existe uma resignação, e eles sabem que isso é impossível? Vamos pensar mais a respeito, porque o assunto, como diria um velho amigo, dá um bom caldo. Você está em um lugar bacanão que vai lhe cobrar um dinheirão por uma refeição (ah, a poesia!), e de repente, na sua mesa, você e os demais cinco amigos começam a enfrentar básicas dificuldades para conseguir mais uma fatia de pão.
Abro mais um parêntese (ou seria melhor um colchete?) para fazer uma simples pergunta. Por que raios alguém decidiu que é mais chique, elegante, charmoso, ter um camarada que fica a passear pelo salão com uma cesta de pães e, quando de passagem por sua mesa, lhe oferece uma fatia? Por que não deixar uma simpática cesta na mesa? É artigo de luxo? Quebraremos o restaurante bacanão se nos atrevermos a comer umas dez fatias de pão? Cito o Piselli e sua deliciosa cestinha com um pão sempre quentinho, que é reposto, sem custos extras, mesmo antes de terminado.
Por que acrescentar mais um complicador? Você e seus amigos não estão nada felizes porque sabem, repito, que vão morrer com uma grana preta e estão começando a se irritar por ter de levantar os braços e acenar e sorrir e solicitar o que não deveria ser solicitado, mais pão.
Chega, finalmente, o momento da comida, e retomo outro ponto. Será que todos se esforçaram ao máximo para preparar aquele prato? Eu não tenho dúvida que sim. Sempre partirei desse princípio. Sei que todos que estão dentro de uma cozinha, um dos mais duros trabalhos que existem, estão por paixão.
Verdade é, porém, que temos nossos dias ruins. Bourdain, em seu último livro que comentei por aqui, o Maus Bocados, fala claramente e sem rodeios: não dá para soltar 60 refeições espetaculares por turno. Em um bom restaurante, com bom movimento, 200, 300 refeições são comandadas. Não se consegue a perfeição com esse número. Mas isso não significa que devemos aceitar a mediocridade do prato possível. Creio que seria uma boa política (e não é nova) o cliente avaliar o prato. Pode-se ter um valor indicativo.
Por exemplo, o spaghetti al sugo tem um valor sugerido de 30 reais. Você prova e faz sua análise. Massa de boa qualidade, ponto perfeito, molho de tomates espetacular, como há muito você não provava. Vale mais que 30. Você paga 40 com prazer e com um sorriso enorme na boca. Ficou dentro do padrão da mediocridade e o passador de pão, ainda por cima, ignorou solenemente sua mesa? São 20 mangos, para, eventualmente, voltar. Tragédia total? Não pague nada e ainda peça uma grana para dar ao manobrista.
Não estou brincando, não. Tem alguma coisa acontecendo nas cozinhas, nos salões, na gerência. Sinto uma enorme acomodação. Os bacanões estão cada vez mais medíocres e certos de que continuarão a receber troféus de revistas.
Em resumo: nunca se comeu tão mal em São Paulo e nunca o serviço esteve tão precário.
Marcio Alemão
Fonte: Carta Capital on line, 28.04.2008.
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