As autoras pretendem discutir a retomada do “nomadismo” como uma das principais paisagens
sociais e subjetivas contemporâneas. Para cumprir este objetivo, analisam “as práticas espaciais e os fluxos subjetivos que atravessam o cenário atual das metrópoles, especialmente no que diz respeito às culturas jovens urbanas.” P. 17
O discurso e as práticas sociais dos “guerreiros da night” constituem o material empírico que serve de base ao estudo. Eles são jovens, filhos das classes médias, alunos de boas escolas da cidade do Rio de Janeiro, freqüentam boates e academias e desfilam nos trechos mais concorridos da orla carioca. A classificação “guerreiros da night” é utilizada pelos jovens quando se auto-definem. A partir desta categoria, as autoras construíram um conceito explicativo que permite compreender o universo simbólico dos jovens, suas relações objetivas e a construção subjetiva das interações juvenis.
Os “guerreiros da night” transformaram a noite em uma categoria fundamentalmente espacial. O espaço noturno é classificado como night, uma categoria que engloba portas de boate, escadarias, boates, postos de gasolina e espaços públicos de diversão. Quando englobados pela nigth, estes espaços se transformam em lugares de “zoação”, espaços onde os jovens se encontram, conversam se beijam, bebem e seguem para outro lugar no grande circuito da night.
No decorrer da leitura é possível perceber que os jovens contemporâneos transformaram o deslocamento em um fim em si. A partir desta percepção, as autoras afirmam que a formação de identidades juvenis deve ser analisada através de uma rede contínua de fluxos e migrações. Os jovens são classificados como agentes culturais ativos, que vivenciam experiências espaciais organizadas em torno de novas sensibilidades temporais e espaciais. A night transforma espaços que objetivamente servem a outros fins, em espaços da night. Esta construção subjetiva revela aspectos da construção simbólica das visões de mundo e dos projetos de vida dos jovens analisados.
As autoras pretendem se afastar da atmosfera de mal-estar e de ´pânico-geral` que costuma perpassar as análises sobre a pós-modernidade. Procuram positividade na pós-modernidade e apostam no re-encantamento do mundo e dos sujeitos. Suas abordagens sobre a subjetividade ancoram-se na performance corporal, na ênfase sobre o tátil, o situacional, a interatividade. Elas fazem uma oposição entre esta subjetividade e uma outra, que seria voltada para reflexividade, interioridade, auto-conhecimento, o que marcaria as diferenças entre a modernidade e a pós-modernidade.
O livro discute, sem oferecer juízos de valor, a efemeridade das relações desenvolvidas entre os jovens. Ao mesmo tempo, apresenta as mais diversas formas de pertencimento aos grupos da night. É preciso ter um celular, usar um visual básico, não perder a linha. A night começa com os contatos com a “galera” e o “zoar” só faz sentido quando é o “zoar com”. A construção social das identidades juvenis ocorre a partir de um equilíbrio dinâmico entre a construção da pessoa jovem individualizada e a busca por referências grupais, mesmo aquelas construídas em trânsito.
O texto está dividido em cinco capítulos, além da introdução. No primeiro, “geografia da night”, discutem a construção social dos espaços contemporâneos e os nomadismos metropolitanos. No segundo, “semióticas pós-significantes”, apresentam uma análise sobre os processos de interação desenvolvidos pelos jovens durante as trajetórias percorridas no circuito da night. O terceiro capítulo “subjetividade em deslize: da lógica da identidade aos fluxos de identificação”, é dedicado à uma reflexão sobre as novas configurações da subjetividade verificadas na contemporaneidade. O quarto capítulo “itinerância e mídia”, oferece uma análise sobre a forma pela qual a categoria night engloba uma série de espaços de diversão juvenil. O último capítulo apresenta uma série de micro-poderes envolvidos na construção da estética da night. A diversão noturna é apresentada como um espaço de liberdade, mas existem controles estéticos que impõem um visual básico, a necessidade de fazer uma “social básica” e a impossibilidade de perder a linha no contexto da night. No plano metodológico, o livro conduz o leitor à experiência das escritoras enquanto vivenciavam o circuito da night. O pertencimento geracional não impediu o diálogo com os jovens. Ao contrário, foi importante para que ambas conseguissem olhar para “os guerreiros da night” a partir de uma perspectiva comparativa. Não há juízos de valor no decorrer do texto, mas em diversas passagens o estranhamento das autoras com o comportamento dos jovens analisados se torna evidente. Este diálogo transforma o livro em uma leitura interessante para jovens desta e de outras gerações.