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Resumos e revisões curtas

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Shvoong Home>Ciências Sociais>Salazar. E Agora?

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Salazar. E Agora?

por : MarioMiguel    

Autor : Mário Miguel
Salazar. E agora?     Agora gritemos: Ó Pai, Ó Pai, e a seguir, bebamos uma Sagres de penalty. Os portugueses são um povo
caridoso e naïf. Duas qualidade promíscuas que quando convivem e se mesclam na mesma panela de pressão, produzem um nefasto defeito: uma desmesurada nostalgia.   Somos nostálgicos, apáticos e ainda por cima temos mau feitio. Vai daí, perscrutamos o palimpsesto das nossas raízes e ressuscitamos um dos pensamentos ancestrais mais rijos e genuínos acerca das poderosas criaturas que alcançam o difuso degrau chamado poder: “eles tem a obrigação de cuidar de nós”. O estado deve dar-nos o que precisamos e o que não precisamos, orientar-nos para tudo, pois sozinhos somos incapazes, mas não dizemos. Acudam-nos! Salazar orientou-nos, para o bem ou para o mal e talvez para o indefinido, mas não importava o destino. Encaminhou-nos para um qualquer lado palpável, fora das tabernas.   Temos saudades de governos assim. Governos que não nos cobrem 5 euros quando vamos ao hospital. Que nos coloquem uma escola a 5 metros de casa, mesmo que depois nos instiguem a não frequentá-la e que nos acossem quando queremos ler uns livritos urdidos além-mar.  Temos tanta saudade, que mesmo na ausência do déspota, encontramos entusiasmo em fazer da sua memória o espectro de um mártir. Somos submissos e fieis. Até à morte. Como cães.   Haja quem invente uma vacina que expurgue este vírus voraz do nosso âmago, esta peste que nos faz chorar como criancinhas, ver telenovelas com avidez confrangedora, enviar torrentes de mensagens sms a preços de oiro para concursos que dão pacotes de batatas fritas a sorteio. Que letargia esta, que nos afasta dos nossos irmãos ocidentais, eles que também herdaram, num momento da sua história, iguais ou ainda mais poderosas enfermidades.   No outro dia, dizia para uma pessoa muito especial: “sabes, eu gosto deste pais, não andamos para aí a matar-nos,  temos respeito pela vida...Se alguém viesse abanar este estado de coisas, se me pedissem, eu pegava numa arma e lutava ao lado dos demais”. Apercebi-me depois que estava a derivar para a mesma clivagem.   É que uma coisa é lutar por uma causa, exigir o cumprimento de um direito, outra é ir na onda da luta, no hálito daquele que vocifera. As mentes iluminadas servem de farol aos mais obscuros tanto quanto pode cegar os mais astutos, mas a sua genialidade é reflexo da fé dos espectadores. Faltou-me, portanto, naquela afirmação, a mim e a todos, um raciocínio intermédio - uma falha que é pertença genética deste país, e que chamo de falência salazaronista: A ausência da conjugação do exterior com o interior. Sermos, antes de nos sujeitarmos a ser. Se não o conseguimos, resta-nos  o vazio do não-ser, e o futuro é dar aos esmolados a mesma experiência protectora e deles esperar a eterna redenção. Assim cá estamos e andamos. Como a mula.   Salazar cá está também, numa caixa de Pandora.   Se ao menos fôssemos espanhóis...
Publicado em: março 24, 2007
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