A cultura brasileira é rica em tipos característicos. Tem a “baiana do acarajé”, o “gaúcho dos pampas”, o “jangadeiro cearense”, o “preto velho com seu cachimbo”, o “seringueiro da Amazônia” (aquele que vive sozinho, isolado na floresta, tirando leite do pau...). Os estudiosos da nossa cultura, os Câmara Cascudo do terceiro milênio, no entanto, ignoram um novo tipo brasileiro, que ainda não foi devidamente catalogado, mas é objeto da curiosidade
semanal de milhares de pessoas: o
famoso de
revista.
Mas quem é essa criatura, o famoso de revista? Como vive? Do que se alimenta? Quais são suas crendices, superstições, hábitos sociais e culturais? Como se acasala? Tudo isso é motivo de intensas pesquisas e especulações. Normalmente, um ser humano (ou um animal, um vegetal, um mineral e até mesmo José Sarney) é famoso (ou famosa) por algum motivo: venceu uma guerra, descobriu uma nova vacina, escreveu um bestseller, bateu algum recorde esportivo, passou do
apoio à ditadura ao apoio ao PT na maior, enfim, realizou alguma façanha notável que levou aquele indivíduo, ou “indivídua”, aos umbrais da fama. Incensado, reverenciado, desejado e invejado, afinal, ele, ou ela, chegou aos píncaros do sucesso!
Só que esse não é o caso do famoso de revista. Ele é famoso simplesmente porque é famoso. Na
Semana passada, veraneava numa praia a convite de Caras. Nesta semana, aplaude um torneio de golfe nas páginas de Chiques & Famosos e, na semana que vem, estará no Valle Nevado, esquiando na Quem ou na Flash, não importa. Ele é famoso porque vive feito um Tarzan de cipó da mídia, pulando de revista em revista, de
capa em capa, numa incansável batalha semanal na dura luta pela sobrevivência.
Em geral, os machos (sic) da espécie revelam uma nebulosa atividade econômica e se definem, vagamente, como empresários, mas nunca deixam claro em qual tipo de empreendimento estão envolvidos. Nada a ver com a caça, a pesca ou a coleta de frutas silvestres. No caso de ser ator ou
atriz, ou melhor, modelo e atriz, nunca estão sob as luzes da ribalta. Geralmente, estão ciscando no terreirão do ostracismo, mas declaram para os devidos fins que têm “vários projetos”, ou pior: “estudam propostas”. O famoso de revista chama isso de “visibilidade”.
Fonte: Revista Piauí, outubro 2007.
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