È sabido que em Guimarães Rosa encontra-se em suas obras experiências novas partindo de termos regionalistas introduzidas, por ele, na língua portuguesa falada no Brasil. Estas expressões novas são conhecidas como neologismo. É de se levar em conta que Guimarães utiliza uma palavra conhecida dando-lhe uma nova acepção.
Lê-lo, portanto, é aceitar o desafio de entender o seu léxico que é rico em expressões mais utilizadas no campo da semiótica regionalista. Não é à-toa que Guimarães é um dos autores modernista mais estudado entre os acadêmicos do curso de Letras em nível de mestrado e doutorado. Guimarães foi um escritor que levou suas obras ao instigante mundo, onde recria a língua e faz com que os leitores e grandes observadores de suas obras tentem decifrar todo momento os seus “achados” semântico, morfológico, e, até mesmo, sintático ou morfossintático, como se a literatura não fosse apenas algo sério, mas também algo criativo, artístico e misterioso. Em suas obras de grande multiplicidade, Guimarães nos ensinou e apontou inovações, riquezas de neologismos e um grande impacto emocional. Guimarães é de uma imensa perspicácia, que apesar de suas obras terem sido publicadas em diversos idiomas, é de especial interesse para os que falam o português, pois revela a exclusividade de nossa língua.
Toda essa criatividade, segundo o mesmo Guimarães, advém principalmente de suas experiências, das viagens, de sua curiosidade que o faz sempre pesquisar em dicionários e livros, as diferentes convivências culturais, o domínio de vários idiomas, além de muitas outras técnicas que facilitam toda as suas criações. Mas nada que subestime a sua genialidade e inteligência.
“Guimarães, mestre de dois mundos, tinha a capacidade de transpor a fronteira que separa o universo das manifestações temporais daquela da causalidade profunda. E sempre que esse trânsito se concretiza, realizado por um perito nas artes, surge um símbolo preciso a ser contemplado, uma obra de valor universal e perene.” (José Maria Martins)
A linguagem de Guimarães Rosa é rica em neologismos, palavras arcaicas, dialetos e outros. No conto “A Volta do Marido Pródigo”, Guimarães retrata de forma bem verossímil as atitudes dos personagens e a língua falada da zona rural. É marcante o uso de gerúndios que denotam as ações dos personagens.
Percebe-se que é abundante o número de palavras no diminutivo que remetem a simplicidade do linguajar das pessoas do interior que buscam falar de uma forma bem carinhosa. Ex: mainha, painho, burrinho, olhinhos, dinheirinho, mulatinho, mãozinhas, cavalinho, seu Marrinha, dentre outras que se encontra no conto.
Único, desbravador incessante, regente da linguagem
mineira, João Guimarães Rosa, foi e será o maior amante dos mistérios da aura que envolve as Minas Gerais. Sintetiza em palavras à magia, à alquimia da vida mineira. Transpassa em prosa os anseios, os desejos e as necessidades das pessoas, filhos do sertão mineiro. Por isso seus contos refletem a sublime lhaneza daqueles que descobriram os sentidos da vida, simplesmente vivendo.
Regionalista de coração e de pensamento, expressa e retrata no papel a simplicidade do “jeitinho mineiro de ser”.
João Guimarães Rosa estreou com a obra “Sagarana”. Com esta obra ele renovou o conto brasileiro e a literatura mineira. “Sagarana” é uma obra que se subdivide em nove contos; iremos nos concentrar em um conto especifico desta obra: “A Volta do marido Pródigo”.
Basta lê-lo para se ter à noção de quão é bela e estruturada a classe de sua linguagem e como é áureo o balé de suas palavras. Veja alguns trechos:
“Mulatinho levado! Entendo em assim, por ser divertido. E não é adulador, mais sei que não é covarde. Agarra a gente, porque é alegre e quer ver todo o mundo alegre, perto de si. Isso que remoça. Isso é reger o viver” (pág. 110)
“Mas que é que já vai fazer, seu Lalino?...Quer a vagabundageminteirada?”
- Vou p’ ra o Belorizonte... Arranjeizinho lá um lugar de guadar-civil... O senhor sabe: é bom ir ver. Mas um dia gente volta!
“Mentira pura, a mim tu não engana... Mas deve de ir... Em qualquer parte que tu ’teja tu ’tá em casa... Podem te levar de-noite p’ ra China, e largar lá errado dormindo, que de-manhã já acorda engazopando os japonês!...”( pág. 113)
E o mais impressionante é o que proporciona este estilo tão rubro de escrever: os neologismos que falamos e que Guimarães transpassa para o papel!
“- Esta direito, Bingo. Vai agora lá na cozinha, p’ ra ganhar algum de-comer. Depois, você volta p’ ra lá, e fica calada escutando tudo direito”
“–Tudo num santiamém, senhor Eulálio...Mire o que digo...
- Te quando Deus quiser! O dinheiro em lhe mando, seu Ramiro”Nilce Sant’Anna é autora do livro “O léxico de Guimarães Rosa”, onde esta presente uma coletânea de palavras utilizadas por Rosa em seus diversos contos. Podemos observar em algumas palavras recursos gramaticais em seus contos. Palavras corriqueiras que nem nos damos conta que são fusões, junções, de duas ou mais palavras que falamos.
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