Conforme dados do INEP, entre os jovens e adultos, considerando-se aqueles que têm mais de 15 anos, cerca de 13% são analfabetos, ainda que um terço deles já tenha passado pelo Ensino Fundamental. Entre as crianças, mais da metade das que chegam à 4ª série não tem apresentado um rendimento adequado em
leitura. Quase 30% dessas crianças não sabem ler. Esses dados nos levam a refletir: o que acontece com o nosso país? O que acontece em nossas escolas? Por que parte significativa de nossas crianças não aprendem a ler, mesmo diante de tantos projetos implantados pelas secretarias de educação municipal, estadual e federal? Dissociar alfabetização e
letramento é um equívoco porque, no quadro das atuais concepções psicológicas, lingüísticas e psicolingüísticas de leitura e escrita, a entrada da criança no mundo da escrita se dá simultaneamente por esses dois processos: pela aquisição do sistema convencional de escrita – a alfabetização, e pelo desenvolvimento de habilidades de
uso desse sistema em atividades de leitura e escrita, nas práticas
sociais que envolvem a língua escrita – o letramento. Há algum tempo, descobriram no Brasil que se podia usar a expressão letramento. E o que aconteceu com a alfabetização? Virou sinônimo de decodificação. Letramento passou a ser o estar em contato com distintos tipos de texto, o compreender o que se lê. Isso é um retrocesso. Eu me nego a aceitar um período de decodificação prévio àquele em que se passa a perceber a função social do texto. Acreditar nisso é dar razão à velha consciência fonológica. Essa nova
palavra veio para designar essa inusitada dimensão da entrada no mundo da escrita, que se constitui de um conjunto de conhecimentos, atitudes e capacidades necessárias para usar a língua em práticas sociais. Embora já usual por pesquisadores, ainda não existe um conceito formalizado nos livros oficiais de sinônimos. Há, mesmo, vários livros que trazem essa palavra no título. É preciso reconhecer também que a palavra não foi incorporada pela mídia ou mesmo pelas escolas e professores. É ainda uma palavra quase só dos ‘pesquisadores’. Outra fonte de equívocos é pensar os dois processos como seqüenciais, isto é, vindo um depois do outro, como se o letramento fosse uma espécie de preparação para a alfabetização. Com essa reflexão, percebemos que é possível encontrar pessoas que passaram pela escola, mas não são capazes de se valer da língua escrita em situações sociais que requerem habilidades mais complexas (interpretação). Como também podemos encontrar pessoas que nunca foram à escola, mas que tem leitura de mundo. Se levarmos em conta a proposta de letramento como processo de compreensão social da palavra, essas pessoas são alfabetizadas, mas não são letradas. Essa condição é particularmente dolorosa e indesejável, embora freqüente, dentro da própria escola. O desafio que se coloca hoje para os professores é o de conciliar esses dois processos, de modo a assegurar aos
alunos a apropriação do sistema alfabético-ortográfico e a plena condição de uso da língua nas práticas sociais de leitura e escrita. Considerando-se que os alfabetizandos vivem numa sociedade letrada, em que a língua escrita está presente de maneira visível e marcante nas atividades cotidianas, acreditamos que eles terão contato com textos escritos e formularão hipóteses sobre sua utilidade, seu funcionamento, sua configuração. Excluir essa vivência da sala de aula, por um lado, pode ter o efeito de reduzir e artificializar o objeto de aprendizagem que é a escrita, possibilitando que os alunos desenvolvam concepções inadequadas e disposições negativas a respeito desse objeto. Por outro lado, deixar de explorar a relação extra-escolar dos alunos com a escrita significa perder oportunidades de conhecer e desenvolver experiências culturais ricas e importantes para a plena integração social e o exercício da cidadania. Assim, entende-se que a ação pedagógica mais adequada e produtiva é aquela que contempla, de maneira articulada e simultânea, a alfabetização e o letramento. Quem lê tem competência para assumir um determinado patamar social apenas pelo fato de ter registrado em um papel seu título. Quem não sabe ler desce ao patamar inferior e fica impossibilitado, muitas vezes, de opinar sobre um determinado assunto que sua leitura de mundo poderia oferecer. A necessidade de se separar os
estudos sobre alfabetização do termo letramento, no sentido restrito (competência/capacidade de uso e prática da escrita), dos estudos de pesquisas (práticas letradas sociais, culturalmente determinadas) cristalizou o uso deste termo (letramento) nos meios acadêmicos, justamente pela diversidade, complexidade e amplitude do fenômeno letramento. O conceito de letramento começou a ser usado nos meios acadêmicos numa tentativa de separar os estudos sobre o ‘impacto social da escrita’ dos estudos sobre alfabetização, cujas conotações escolares destacam as competências individuais no uso e na prática da escrita. Na realidade, enquanto se discute qual a metodologia, o método, as estratégias e mecanismos para a aquisição da leitura pela criança, menos eles aprendem a ler. 30% dos alunos que terminam o ensino fundamental são analfabetos literais e 60% dos alunos que concluem o ensino médio são analfabetos funcionais. A televisão não noticiou tal notícia, mas passou vários dias perguntando ao povo brasileiro porque o Brasil perdeu a copa e muitos choraram por isso. Mas, quanto à educação... todos preferem silenciar. Até quando?
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