O capítulo “Como articular Ciência e Ética?”, do livro “A Construção das Ciências”, de Gérad Forez, propõe a discussão desta importante questão a partir de 3 perguntas: “Pode a ciência nos dizer quando, no processo de crescimento de um feto, estamos diante de uma pessoa humana?” ; “pode a ciência nos dizer que política seguir em matéria de corrida armamentista?” ; e “deve-se ou não construir centrais nucleares?”.
Segundo o autor, cada uma dessas áreas da ciência usadas como exemplos para sua discussão pauta-se por paradigmas próprios, relativos à biologia, à política e à física nuclear, respectivamente. Dessa forma, a idéia de “personalidade humana” não entra no âmbito das ciências biológicas, bem como a idéia de “risco aceitável” para corrida armamentista e a instalação de centrais nucleares é diferente para políticos e físicos, do que é para profissionais de outras áreas.
Aparentemente, uma abordagem interdisciplinar da questão seria a solução, na intenção de levantar dados relevantes a diferentes áreas e estudá-los a partir de diferentes pontos de vista. Porém, Forez salienta que tal atitude não resolveria, pois ainda sim os vários paradigmas de cada área estariam presentes e o resultado final nada mais seria do que um acordo entre as partes envolvidas, sem que a questão ética fosse realmente resolvida.
Dessa forma, para Forez, as escolhas éticas respondem muito mais às individualidades de cada um do que a uma opinião de senso comum. Para exemplificar, o autor apresenta situações polêmicas como o aborto e sua criminalização, analisados de diferentes pontos de vista como a saúde e a vontade da mulher, as conseqüências desse ato, etc, para mostrar como as áreas da ciência podem fornecer fatos, estatísticas e dados a respeito de um assunto, mas não nos dão a resposta pronta para a questão moral.
Obviamente, as respostas para perguntas como “eu considero isto ‘bom’ ou ‘ruim’?” ou então “desejo ou não assumir esta decisão?”, podem ser influenciadas ou até mesmo baseadas e justificadas por argumentos científicos, mas cabe a cada individuo fazer tal opção. Tais escolhas serão realizadas mais profundamente com base em nossas crenças e experiências de vida, levando em consideração as escolhas que julgamos serem “boas” e “corretas” para nós.
Por isso, segundo Forez, a decisão ética e a análise científica costumam causar, muitas vezes, acalorados debates que nem sempre possuem uma “resposta correta”. Para o autor, tudo depende do ponto de vista e das diversas áreas envolvidas na polêmica, o que explica também a existência de tantas “incoerências” na área do discurso ético, uma vez que cada pessoa traz consigo uma série de questões, valores e preceitos diferentes.
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