A aquisição por parte de
um aluno de habilidades motoras aquáticas específicas, o sucesso dessa apropriação dependerá da prévia aquisição de determinadas habilidades motoras aquáticas básicas (Barbosa, 2000; 2001; Queirós e Barbosa, 2002). De entre essas habilidades será de realçar a importância do equilíbrio (Queirós e Barbosa, 2002), da propulsão (Barbosa e Queirós, no prelo), das manipulações e da respiração.
Uma dificuldade com que se depara um sujeito nos primeiros contactos com o meio aquático relaciona-se com a respiração. A impossibilidade de utilizar o mecanismo respiratório habitual no meio aquático, especialmente quando se encontra em decúbito ventral, implica a necessidade de aquisição de novos automatismos. Ou seja, ao mecanismo respiratório inato utilizado no meio terrestre, há que promover as alterações adequadas. Alterações essas que passam em traços largos pelo aumento voluntário das trocas gasosas e, consequentemente, pela sua dominância bocal. Assim sendo é objectivo deste trabalho apresentar os pressupostos essenciais à aquisição desse novo mecanismo respiratório no decurso da adaptação ao meio aquático.
Determinantes fisiológicas e mecânicas A respiração assume um duplo papel. Um papel fisiológico, relacionado com a actividade corporal e a necessidade de efectuar trocas gasosas; e um mecânico, em virtude de influenciar directamente a flutuabilidade do sujeito (Catteau e Garoff, 1988; Navarro, 1995). Numa perspectiva fisiológica, estando sentado imerso até ao pescoço, a capacidade vital de um indivíduo diminui 8 a 10% (Agostino et al., 1966 in Holmér, 1974). Isto deve-se a um aumento do volume sanguíneo na região torácica. Para mais, o aumento da resistência à ventilação durante a imersão, em repouso ou em actividade, promove um aumento do esforço respiratório. Assim sendo, o acto respiratório não pode ser meramente reflexo e passivo, tendo de se tornar voluntário e activo. Daí que tradicionalmente a prática das actividades aquáticas seja prescrita a indivíduos com patologias do foro respiratório, procurando fortalecer a musculatura associada a esse sistema. Por outro lado, quanto maior a velocidade de deslocamento do sujeito, maior a necessidade do consumo de oxigénio por parte do organismo. Paradoxalmente, com base no senso comum, dir-se-ia que é nesta situação que se verifica uma menor possibilidade de o efectuar, já que a duração da emersão das vias aéreas superiores diminui em consequência da diminuição da duração relativa da recuperação dos membros superiores. Logo, o sujeito entraria em défice de oxigénio. Contudo, este fenómeno é irradicado por meio de um aumento da ventilação pulmonar (Holmér, 1974). A inspiração diafragmática será a mais adequada, dado que far-se-á necessariamente durante o tempo em que os membros superiores tem um mínimo de "apoio" sobre a caixa torácica (Catteau e Garoff, 1988; Navarro, 1995). Veja-se o caso das técnicas ventrais de nado formal, onde esta constatação é evidente. De um ponto de vista mecânico, a imperiosa necessidade de prolongar a duração do acto inspiratório perturba inevitavelmente o equilíbrio do nadador e, por vezes, a sua motricidade (Catteau e Garoff, 1988). Facto este que decorre de um aumento do ar inspirado, o qual tende a diminuir a densidade corporal, portanto, afectando a sua flutuabilidade (Vilas-Boas, 1984). Ou seja, ao aumentar-se o volume de ar nos pulmões e ficando em apneia inspiratória aumenta-se o volume corporal imerso, bem como, o volume de água deslocado e, consequentemente, a Força de Impulsão Hidrostática. Assim sendo, altera-se uma das forças de que depende o equilíbrio no meio aquático.
Alterações comportamentais Uma das principais limitações impostas pela passagem à posição horizontal, mais concretamente ao decúbito ventral, relaciona-se com a necessidade de imersão da face, a qual se constitui como uma limitação da função ventilatória (Holmér, 1974). Ou seja, o mecanismo respiratório sofre algumas alterações quando o sujeito se encontra no meio aquático, devido à face se encontrar temporariamente imersa. Isto porque a manutenção da face emersa em decúbito ventral terá fortes repercussões negativas na posição corporal. Nessa posição, a elevação da cabeça terá como reacção o afundamento dos membros inferiores e, inevitavelmente, o aumento da força de arrasto hidrodinâmico (Counsilman, 1968). Outro aspecto relaciona-se com as características físicas desse mesmo meio, nomeadamente o facto de ser mais denso que o ar. O acto expiratório terá de ser voluntário e activo para poder vencer a maior pressão existente na água do que na cavidade bocal e no nariz. Caso contrário, a tendência será para a entrada de água por essas vias e não a expulsão do ar. Assim sendo, o trabalho de aperfeiçoamento da respiração pressupõe a criação de um automatismo respiratório necessariamente diferente do automatismo inato (Mota, 1990). Este passará pelo aumento voluntário das trocas gasosas, conseguidas pela opção da cavidade bocal em detrimento da nasal para inspirar e da boca e do nariz para expirar (Navarro, 1995; Crespo e Sanchez, 1998; Moreno e Sanmartín, 1998). Um outro factor relaciona-se com a inspiração. O acto inspiratório deverá ser automático e rápido visto que será sincronizado com as acções propulsoras e equilibradoras dos quatro membros (Vasconcelos Raposo, 1978; Catteau e Garoff, 1988). Nesta fase é premente oferecer situações que permitam ultrapassar as sensações inibitórias da aprendizagem do novo mecanismo respiratório (Mota, 1990). Entre eles conta-se o "reflexo respiratório", que consiste no bloqueio da glote, no cerrar violento da boca ou no aumento do volume das bochechas, impedindo a inspiração (Catteau e Garoff, 1988). Ou então, nos reflexos faciais, como por exemplo, o fecho dos olhos quando a face imerge. Na verdade, estes dois problemas não deverão ser vistos isoladamente (Sarmento, 2001). Existe uma relação entre os reflexos óculo-faciais e a respiração. A não aceitação da água nos olhos cria uma sensação de angústia, levando ao bloqueio das vias respiratórias e da visão.
A apropriação do comportamento desejado para o meio aquático não é instantâneo. Esta aquisição passa por uma conjunto de comportamentos previsíveis e sequenciáveis (Langendorfer e Bruya, 1995). Os referidos autores consideram como componentes básicas da prontidão motora associadas à habilidade "respiração" o controlo respiratório.
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