São Paulo tem vivido problemas graves em função dos congestionamentos: cada
um de nós perde muitas horas nos deslocamentos diários, de modo que nos habituamos a tal situação. É difícil para os paulistanos terem no mesmo período mais de um compromisso.
A principal razão destes congestionamentos é a frota circulante de automóveis, que aumenta muito mais do que o sistema viário. Basta compararmos o número de veículos de vinte anos atrás com os de hoje para percebermos que é inevitável se repensar as políticas públicas de transporte, levando em consideração inclusive o papel que o automóvel possui na nossa sociedade, como objeto de desejo e de identidade social. Há praticamente uma década, na condição de Secretário de Meio Ambiente de São Paulo, realizamos a Operação Rodízio, cuja finalidade principal era diminuir a poluição na região metropolitana no período do inverno, quando as condições meteorológicas desfavorecem a dispersão da poluição.
A principal motivação do rodízio de então era evitar o agravamento das condições de saúde decorrentes da poluição. As pessoas, especialmente as crianças e os idosos, morrem em função da má qualidade do ar de São Paulo - embora os atestados de óbito não registrem tal causa de morbidade, o que dificulta convencer a população acerca do problema. É possível se fazer uma comparação com os impactos do cigarro na saúde e lembrar o esforço necessário para convencer os fumantes a abrirem mão de seus hábitos. Lembro que durante as intensas discussões do rodízio participei de um debate em uma universidade com um médico fumante, extremamente irritado pela restrição imposta à circulação de seu automóvel. Lembrei a ele que existem muitas similaridades entre as duas situações de risco à saúde, procurando demonstrar que acesso a informação não é suficiente para o convencimento das pessoas. Aliás, muitas das pesquisas que realizamos na época demonstravam um significativo número de não-motoristas contrários ao rodízio - ainda que fossem os maiores beneficiários da medida, pelo fato de perderem menos tempo em seus deslocamentos (por exemplo em transportes coletivos) e também por respirarem um ar melhor...
No mês de julho assistimos à população de São Paulo pedir ao prefeito Kassab a volta do rodízio em função dos congestionamentos, o que legitimou inteiramente a medida, uma vez que seus benefícios se tornaram tangíveis à população. O movimento "Nossa São Paulo: Outra Cidade" realizará amanhã uma reunião para discutir o Dia Internacional Sem Carro em São Paulo, programado para acontecer em 22 de setembro. A importância deste evento revela um amadurecimento da sociedade com o tema.
É bem verdade que um dos grandes calcanhares de Aquiles do rodízio sempre se deveu à incapacidade do Poder Público de prestar a sociedade um bom serviço de transporte, isto é, eficiente, barato e não poluidor. Somando essa deficiência às demais no campo da educação, saúde e segurança, temos um caldo de cultura que permite que boas medidas sejam rejeitadas e de difícil aceitação. De certo modo isto explica a enorme resistência de certos setores ao rodízio, inclusive da mídia, que a encarava como populista com vistas a ganhos eleitorais da minha parte. Não tenho dúvidas de que a "antipatia" gerada pelo rodízio teve grande repercussão na minha derrota eleitoral de 98.
O contexto de hoje é muito diferente, até porque as emissões dos automóveis têm um grande peso para o aquecimento global, exigindo mudanças tecnológicas e de comportamento. A própria indústria tem consciência de que o cerne da questão é a mobilidade, sendo o automóvel apenas um dos seus instrumentos. No caso de São Paulo acredito que temos que trilhar um período de transição para a sustentabilidade, ou seja, não se pode abrir mão do automóvel, ainda que a Prefeitura e o governo do Estado estejam fazendo enorme esforço para melhorar o sistema de transporte coletivo. Deste modo, temos que seguir o que o Secretário do Verde e do Meio Ambiente, Eduardo Jorge, tem defendido: tornar o uso do automóvel mais sustentável, através de medidas como a "Carona Solidária", que melhora em muito a ocupação dos mesmos.
A idéia é fazer com que pessoas que usam o mesmo trajeto possam fazê-lo dividindo seu automóvel. Com isso, todos ganhariam. Estuda-se inclusive a possibilidade de se priorizar nas vias públicas "carros solidários", bem como eventual diminuição de impostos sobre os mesmos. A médio prazo, a criação de uma Central de carona solidária, através da qual fosse possível se organizar a mesma, com salvaguardas relativas à questão de segurança pelo teste de antecedentes criminais de seus usuários. Em outras palavras, há que se mudar o comportamento relativo ao uso do automóvel em São Paulo, a exemplo do que ocorre em outras cidades, estimulando-se modalidades de transporte não motorizado, como a bicicleta e o hábito de andar a pé, entre outros.
Certamente o desafio por uma melhor qualidade de vida em São Paulo e qualquer outra cidade brasileira passa pela mobilização da sociedade civil em articulação com o Poder Público, num outro modelo de governança no qual se priorize um pacto entre os diversos atores sociais, assegurando investimentos de longo prazo em infra-estrutura urbana. Afora isso, há que se concentrar em medidas que denomino "software", isto é, aquelas que operem na indução de comportamentos especialmente por parte dos indivíduos, sem os quais se inviabiliza qualquer possibilidade de melhoria perceptível do cotidiano dos cidadãos. O rodízio se insere nesta categoria, a exemplo da Carona Solidária. Temos que estimula-los o quanto pudermos.
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