sonetos
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Resumo escrito por
:
naria
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600
Publicado em: julho 04, 2007
Enquanto
quis Fortuna que tivesse
Esperança de algum
contentamento,
O gosto de um suave
pensamento
Me fez que seus versos
escrevesse.
Porém, temendo Amor que
aviso desse
Minha escritura a algum
juízo isento,
Escureceu-me o engenho co
tormento,
Para que seus enganos não
dissesse.
Ó vós que Amor obriga a ser
sujeitos
A diversas vontades! Quando
lerdes
Num breve livro casos tão
diversos,
Verdades puras são, e não
defeitos...
E sabei que, segundo o amor
tiverdes,
Tereis o entendimento de
meus versos!
topo
II
Eu
cantarei de amor tão docemente,
Por uns termos em si tão
concertados,
Que dois mil acidentes
namorados
Faça sentir ao peito que não
sente.
Farei que Amor a todos
avivente,
Pintando mil segredos
delicados,
Brandas iras, suspiros
magoados,
Temerosa ousadia, e pena,
ausente.
Também, Senhora, do desprezo
honesto
De vossa vista branda e
rigorosa,
Contentar-me-ei dizendo a
menor parte.
Porém para cantar de vosso
gesto
A composição alta e
milagrosa,
Aqui falta saber, engenho, e
arte.
topo
III
Com
grandes esperanças já cantei,
Com que os deuses no Olimpo
conquistara;
Depois vim a chorar porque
cantara,
E agora choro já porque
chorei.
Se cuido nas passadas que já
dei,
Custa-me esta lembrança só
tão cara,
Que a dor de ver as mágoas
que passara,
Tenho por a mor mágoa que
passei.
Pois logo, se está claro que
um tormento
Dá causa que outro na alma
se acrescente,
Já nunca posso ter
contentamento.
Mas esta fantasia se me
mente?
Oh ocioso e cego pensamento!
Ainda eu imagino em ser
contente?
topo
IV
Depois
que quis Amor que eu só passasse
Quanto mal já por muitos
repartiu,
Entregou-me à Fortuna,
porque viu
Que não tinha mais mal que
em mim mostrasse.
Ela, porque do Amor se
avantajasse
Na pena a que ele só me
reduziu,
O que para ninguém se
consentiu,
Para mim consentiu que se
inventasse.
Eis-me aqui vou com vário
som gritando,
Copioso exemplário para a
gente
Que destes dois tiranos é
sujeita;
Desvarios em versos
concertando.
Triste quem seu descanso
tanto estreita,
Que deste tão pequeno está
contente!