Chávez faz de Estado natal balão-de-ensaio socialista
Em Barinas, pai do presidente tenta fazer funcionar o "socialismo do século 21"
Família domina a política local, mas, no chamado berço da revolução, surgem denúncias, economia não muda, e população reclama
João Padua - 5.jul.07/Folha Imagem
O governador de Barinas, Hugo Chávez pai (de terno),
assiste com a mulher à festa da independência da Venezuela; família
governa Estado natal do presidente, mas revolução socialista não decola
FABIANO MAISONNAVE
ENVIADO ESPECIAL A SABANETA
Nos últimos
anos, Barinas, o
Estado onde Hugo Chávez nasceu, em 1954, transformou-se
num dos principais laboratórios do que o presidente venezuelano vem chamando de socialismo do século 21. Mas, para
implantar a sua revolução, ele
vem lançando mão de
um recurso antigo: empregar a própria família.
Os Chávez são onipresentes
neste pequeno Estado agropecuário a oeste do país, batizado
de "berço da revolução" pela
propaganda oficialista em diversos outdoors espalhados
por ruas e rodovias.
A lista começa pelo pai, Hugo
de los Reyes Chávez. Professor
aposentado do ensino primário, ele é o governador de Barinas desde 1999.
De idade avançada -
tem mais de 80 anos-, Chávez pai
delega cada vez mais suas funções ao filho Argenis, secretário
de Estado, cargo especialmente
criado para ele. Com forte influência na política local, é o
provável candidato à sucessão
do pai, no ano que vem.
Em Barinas, a família tem
ainda Adelis, organizador local
da Copa América, e Narciso,
coordenador regional do convênio médico com Cuba. Na capital venezuelana, outro irmão,
Adán, foi nomeado ministro da
Educação no início deste ano.
Por fim, a cerca de 50 km da cidade de Barinas, mais um irmão de
Chávez, Anibal, é o prefeito do município Alberto Arvelo Torrealba,
cuja sede é Sabaneta, cidade onde o presidente nasceu e viveu seus
primeiros anos.
Apesar de ter pouco menos
de 50 mil habitantes, Sabaneta
ainda tem ruas sem pavimento,
facilmente inundáveis pelas
chuvas, e sofre com um problema histórico no fornecimento
de água, que chega às casas com
mau cheiro.
Críticas
"Hugo é um homem enviado
por Deus e nunca vou traí-lo",
diz à Folha "Chicho" Romero,
71, ex-treinador de beisebol
com quem Chávez morou em
Caracas em meados dos anos
1970, quando era estudante.
"Mas o povo daqui de Sabaneta não quer saber da família,
pode fazer uma pesquisa. Não
tem açúcar, gás, leite; tem de
fazer a mãe das filas para conseguir isso", diz ele, constantemente citado por Chávez em
discursos e casado no passado
com uma tia do presidente.
As críticas não se resumem a
problemas urbanos. O município, administrado há dois anos
e meio por Anibal, é a sede do
ambicioso projeto de uma
grande usina estatal de açúcar,
o Caaez (Complexo Agroindustrial Açucareiro Ezequiel Zamora). O objetivo é que a Venezuela pare de importar açúcar e
restabeleça o fornecimento regular do produto, ultimamente
em falta nas prateleiras.
Orçadas em R$ 160 milhões,
as obras estão atrasadas em razão de um escândalo envolvendo um desvio de cerca de R$ 2,8
milhões. As investigações, em
andamento, já levaram um general à prisão, mas não envolvem nenhum Chávez. Sem o
Caaez, dezenas de pequenos
agricultores incentivados a
plantar cana estão perdendo
toda a sua produção porque
não têm a quem vender.
"A central ia ficar pronta em
dois anos, já são cinco anos e
até agora nada", diz o agricultor cooperado e taxista Juan
García, 47, diante de um monte
de cana queimada a poucos
quilômetros do centro de Sabaneta. Ele diz que, incentivado
pelo governo, plantou dez hectares de cana. Agora, espera o
perdão do empréstimo de R$
21 mil que contraiu do Estado.
"Para que nos serve o Chávez
ser daqui?", questiona García,
filiado ao partido Copei, agremiação opositora de perfil conservador que já teve Chávez pai
e Anibal emsuas fileiras.
Futebol
As críticas à família presidencial aumentaram ainda
mais nas últimas semanas por
causa da Copa América. O estádio local, "La Carolina", administrado pelo governo estadual,
não foi reformado a tempo, levando a cidade a sediar apenas
um jogo da primeira fase.
O esvaziamento frustrou
parte do comércio da cidade,
sobretudo o setor hoteleiro,
que fez investimentos à espera
de um maior público.
Além desses problemas, a família Chávez ainda tem de responder a
diversos rumores sobre seu suposto enriquecimento. A maior parte das
histórias envolve a fazenda da família, "La Chavera". Numa das mais
famosas -e nunca comprovada-, Chávez teria destruído com um trator um
veículo Hummer recém-adquirido pelo irmão Argenis.
O episódio, supostamente
ocorrido no Natal, tem sido negado pela família.
Parte da mitologia se deve à
oposição, que ensaia se reestruturar para disputar o pleito do
ano que vem depois do boicote
nas últimas eleições regionais,
o que ampliou ainda mais o domínio chavista. Na semana passada, durante um evento do recém-fundado partido Um Novo
Tempo em Barinas, foram distribuídos panfletos sobre "novas medidas" de Chávez, como
a proibição do uso de maquiagem em dias de semana e a limitação de compra de cerveja a
uma caixa por mês.
hávez faz de Estado natal balão-de-ensaio socialista
Em Barinas, pai do presidente tenta fazer funcionar o "socialismo do século 21"
Família domina a política local, mas, no chamado berço da revolução, surgem denúncias, economia não muda, e população reclama
João Padua - 5.jul.07/Folha Imagem
O governador de Barinas, Hugo Chávez pai (de terno),
assiste com a mulher à festa da independência da Venezuela; família
governa Estado natal do presidente, mas revolução socialista não decola
FABIANO MAISONNAVE
ENVIADO ESPECIAL A SABANETA
Nos últimos anos, Barinas, o
Estado onde Hugo Chávez nasceu, em 1954, transformou-se
num dos principais laboratórios do que o presidente venezuelano vem chamando de socialismo do século 21. Mas, para
implantar a sua revolução, ele
vem lançando mão de um recurso antigo: empregar a própria família.
Os Chávez são onipresentes
neste pequeno Estado agropecuário a oeste do país, batizado
de "berço da revolução" pela
propaganda oficialista em diversos outdoors espalhados
por ruas e rodovias.
A lista começa pelo pai, Hugo
de los Reyes Chávez. Professor
aposentado do ensino primário, ele é o governador de Barinas desde 1999.
De idade avançada -tem
mais de 80 anos-, Chávez pai
delega cada vez mais suas funções ao filho Argenis, secretário
de Estado, cargo especialmente
criado para ele. Com forte influência na política local, é o
provável candidato à sucessão
do pai, no ano que vem.
Em Barinas, a família tem
ainda Adelis, organizador local
da Copa América, e Narciso,
coordenador regional do convênio médico com Cuba. Na capital venezuelana, outro irmão,
Adán, foi nomeado ministro da
Educação no início deste ano.
Por fim, a cerca de 50 km da cidade de Barinas, mais um irmão de
Chávez, Anibal, é o prefeito do município Alberto Arvelo Torrealba,
cuja sede é Sabaneta, cidade onde o presidente nasceu e viveu seus
primeiros anos.
Apesar de ter pouco menos
de 50 mil habitantes, Sabaneta
ainda tem ruas sem pavimento,
facilmente inundáveis pelas
chuvas, e sofre com um problema histórico no fornecimento
de água, que chega às casas com
mau cheiro.
Críticas
"Hugo é um homem enviado
por Deus e nunca vou traí-lo",
diz à Folha "Chicho" Romero,
71, ex-treinador de beisebol
com quem Chávez morou em
Caracas em meados dos anos
1970, quando era estudante.
"Mas o povo daqui de Sabaneta não quer saber da família,
pode fazer uma pesquisa. Não
tem açúcar, gás, leite; tem de
fazer a mãe das filas para conseguir isso", diz ele, constantemente citado por Chávez em
discursos e casado no passado
com uma tia do pr
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