Deixa-me ter saudade Rodolfo Galvão de Oliveira Professor e pedagogo r.g.de.oliveira@ig.com.br A Festa do Peixe que havia antigamente, no fim do ano na Rua do Porto era uma quermesse que se tinha de tudo, vendedores ambulantes, jogos de roleta valendo cigarro e dinheiro, jogo de argolas, barracas de aperitivos, que vendiam de tudo, desde pinga com carqueja até pinga com avenca, que um dia um colega de magistério experimentou e deu um trabalho imenso para mim e para o Paulo. Ficou completamente grogue. Começou a falar e não parava mais. Havia também as barracas que vendiam petiscos fritos em óleo de origem duvidosa, mas era uma delícia os lambaris, os mandis-xinga, traíras. Era uma delícia. E o vai e vem das famílias e das moças eram um atrativo para nós garotos que ficávamos à beira das calçadas na tentativa ingênua de uma troca de olhares cúmplices. A rua do porto no meu tempo era na verdade a Av. Beira Rio, que colocaram o nome de um dos pintores pioneiros de Piracicaba, um Dutra. Quando chegava à esquina da casa do Tangará, um famoso pescador de então, a quermesse acabava e começava de fato a Rua do Porto com seu casario e as suas olarias. A freqüência era familiar, mesmo quando não havia festa, apenas os boêmios pelos bares comentando os tamanhos de peixes pescados, peixes que hoje não existem mais pelo roubo das águas de nosso rio, principalmente pelo governo do Estado de São Paulo com um tal sistema Cantareira e pela poluição que os órgãos de controle ambiental nunca se importaram.. Houve até protesto popular, inaugurou-se a montante da Rua do Porto a Praça do Protesto Ecológico, mas de nada valeu, os verdes daquele tempo estavam mais interessados em defender o regime ‘anticomunista’ da época. Mas vamos falar de coisa boa, da quermesse, dos passeios de barco pelo rio que não fedia, dos pescadores vendendo peixe fresco pescado na hora, ali mesmo, perto, no salto, por qualquer dinheiro. Eu, inclusive vendi muito peixe e se não consegui dava aos turistas que lá estavam visitando. Um dia um prefeito resolveu fazer uma praia, ali entre a rua Moraes Barros e Rangel Pestana e foi maravilhosa enquanto durou. Naquele tempo, o rio enchia e transbordava o que dava orgulho aos piracicabanos, e na primeira enchente o rio levou toda a praia. Havia também o Clube de Regatas, especialista em remo, e que já morreu, morto pela morte do rio. Hoje p rio corre entre lento entre cascata de pedra e aço, lento porque até parece que está sólido, de tanta poluição. Dizem hoje que é cidadania ir limpar as margens do rio e não é cidadania cobrar dos órgãos competentes mais fiscalização, e eles ganham por isso, mas parece que não há interesse econômico, isto é, parece que o poder econômico fala mais alto. Restam alguns abnegados como o Moura que procura com suas forças salvar o rio, mas se ele depender do poder público será um tiro n’água de um rio seco. Quero ter saudade de minhas pescarias com meus amigos, meus primos, meu irmão menor, caçula, metido a tarrafeador e que só perdia tarrafa, de nadar caixa rasa, eu tinha medo de nadar na caixa funda. Mas parece que a população de Piracicaba mudou, mais da metade não conhece a história de nosso rio, e o meu sonho Agora que essa parte da população compre a nossa briga e recuperemos o nosso Piracicaba, que para mim tem um afluente famoso, o Tietê, basta conferir as fotos aéreas tiradas antes da barragem de Santa Maria da Serra. Saudade não mata já dizia um poeta, mas dói, machuca e faz chorar...
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