O recente acidente com o avião da Gol e o Legacy tem apenas a desvendar o quanto o Brasil é um país caótico e despreparado.
Em várias ocasiões; em questões cruciais. A sensação que revoa sobre nossas cabeças é que somos enganados, dia-a-dia, vilipendiados em nossas necessidades mais básicas: a da verdade. A da informação coesa, verdadeira e ética. O episódio em questão abre as cortinas de um País assombrado e deficiente. Mostra, por detrás de um painel puramente ilusório, a fragilidade da nossa política, políticos, sociedade, economia e cultura. Depois do fatídico 29 de setembro, fomos levados a acreditar na ineficiência americana em detrimento da “soberania” brasileira. Tudo nos levava a crer que os pilotos da aeronave da Embraer (americanos) haviam errado feio e que seriam os únicos culpados pelo trágico acontecimento. Fomos induzidos a acreditar que, além de errarem, estavam brincando de fazer aviãozinho no fundo de casa, num País-quintal, onde as regras não são claras: um território livre, onde se faz o que se quer, inclusive, deixar que quase duas centenas de pessoas morram inocentes. Jogar a responsabilidade nas costas do outro é o caminho mais fácil. A impressão que se tem é que o Brasil, torpe em seu modelo estrutural, não assume suas culpas, os seus erros e defeitos. Como crescer assim? Somos mesmo soberanos? Mas, só o tempo esclarece as mazelas de um País ainda despreparado. Graças à imprensa brasileira - que, diferentemente de nossos políticos, cresceu horrores após o obscuro período militar - os fatos, os imbróglios vão sendo, pouco a pouco desvendados. A casaca virou. As investigações no caso do acidente da Gol apontam erros crassos. Nossos. Mostram, até agora, que somos um País que brincamos no fundo de nosso quintal sem respeitar nosso próprio limite. Brincamos de voar, fazendo origamis e lançando-os ao vento: esta é a sensação. Colocamos vidas em risco a todo momento, não importam as vidas que se vão. O que importa mesmo é não assumirmos os próprios erros e varrê-los, incontinente, para debaixo do tapete. O obscuro episódio vai, aos poucos, lançando luz sobre as trevas. Descobre-se com o acidente que os aeroportos nacionais estão o caos. Que nossos aparelhos estão dementes. Que os controladores de vôos não são preparados. Que a Aeronáutica foi omissa até agora. São revelados “pontos cegos” nesta região acima de Goiás e Mato Grosso, uma zona selvagem, um “triângulo das Bermudas” aéreo. Semana passada, mais revelações: o controlador responsável pelas duas aeronaves, em Brasília, havia “levado pau” em cinco das seis provas que o admitiriam para a função. E mais: a turma do monitoramento estava sem supervisor, que havia se ausentado para cobrir o posto de chefia geral da sala de controle, no lugar de um oficial da Aeronáutica que se ausentou. Tudo indica _ pelas investigações competentes da Polícia Federal e da pressão da imprensa brasileira _ é que os americanos falharam, mas falharam apenas ao desligar o transponder e ao não seguir o plano de vôo estabelecido, mas por graves razões de comunicação do Cindacta. Mas, como sempre, aprendemos com os erros ou os acertos do outro e nunca pela nossa própria capacidade de pesquisa, até mesmo porque investimos pouco em nós mesmos. Quando assumiremos os nossos erros? Quando cresceremos com eles? Quando alçaremos vôo em função de preservar vidas, de respeitá-las, e não matá-las? Quem tiver coragem, que pegue o primeiro vôo. Em tempo: para alguma coisa tem que ter valido essa história. Só esperamos é que as mais de 150 vidas que foram ceifadas possam ter servido de exemplo, evitando, deste modo, que outras milhares delas sejam, futuramente, lançadas à pura sorte, num País que ainda não entende bem o limite entre viver e morrer.