Por: Dra Dora Chor (1) Katia Silveira da Silva(2), Maria T.C.Almeida(3), Silvana Granado(4) e Luciana Santiago(5)<
br/>Para nós,
mulheres brasileiras,há ótimas novidades a serem comemoradas — como a Lei Maria da Penha, que reprime a violência contra a mulher.
Mas nem tudo é comemoração. A cada ano, por complicações da gravidez,
parto ou pós-parto morrem, no Brasil,cerca de 73 mulheres por 100 mil crianças nascidas vivas (em comparação a 19 mortes no Chile e seis no Canadá). Morte materna é aquela que acontece durante a gestação ou dentro de um período de 42 dias após seu término,devido a qualquer causa relacionada com ou agravada pela gravidez ou por medidas em relação a ela. É uma tragédia para famílias e comunidades, já que as mulheres morrem jovens — com 29 anos de idade, em média, no Brasil —,são as principais responsáveis pelo cuidado das crianças e,muitas vezes, sua única fonte de sustento. No Estado do Rio, estima-se que 250 crianças fiquem órfãs, a cada ano, de mães que morrem durante gravidez, parto ou aborto.
Saúde, esses óbitos são evitáveis em 90% dos casos. No Brasil, a cada dia morrem 4 mulheres, em algum hospital, por causas relacionadas à gravidez. São 1.600 óbitos oficiais (nem todos são notifi cados), número pequeno se considerarmos o total de partos, mas que poderia ser reduzido a 160 mortes maternas. No Chile,houve importante redução da mortalidade materna na última década,por meio da melhoria da assistência ao parto, pós-parto e pré-natal. Essas medidas, que não demandam tecnologia de alto custo, controlam a hipertensão associada à gravidez, infecções e hemorragias, causas mais freqüentes de óbito materno evitável.
As complicações do aborto também aparecem entre as causas principais no Brasil, já que, por ser considerado criminoso,ele ocorre na clandestinidade, sob condições precárias de assistência para as mulheres mais pobres.
Há décadas se dispõe de conhecimento e meios necessários para que nenhuma mulher morra por complicações associadas a gravidez, parto ou pós-parto. No entanto, ainda se morre e de forma muito desigual. No Estado do Rio, entre 2001 e 2003,aquelas que tinham menos de 3 anos de estudo morreram 4 vezes mais do que mulheres com nível
universitário (em 25% dos casos, a escolaridade era ignorada).
Além de ser socialmente desigual, há também grande disparidade de cor/raça:mulheres pretas morreram cerca de 5 vezes mais, independentemente dos anos de estudo.
Para piorar este quadro, no Brasil, as taxas de cesariana, muitas vezes indicada sem justifi cativa, estão entre as mais altas do mundo, o que aumenta o risco de mortalidade materna e neonatal. Apesar da instituição do Pacto Nacional pela Redução da Mortalidade Materna em 2004 "cujos principais objetivos são garantir adequado
atendimento ao parto, acesso ao planejamento familiar, implantação da vigilância do óbito materno e educação permanente dos profissionais envolvidos na atenção obstétrica "não evoluímos muito. Cabe à sociedade mobilizar-se e exigir que esses objetivos se tornem realidade.
Partos são eventos previsíveis, ao contrário de súbitas epidemias, o que torna inexplicável que gestantes sejam obrigadas a buscar, por meios próprios, um lugar para dar à luz. A redução dos óbitos maternos deve ser integrada ao contexto mais amplo dos direitos humanos e diminuição da pobreza em nosso país. É preciso importar-se com cada uma dessas mortes para que deixem de ser invisíveis ou rapidamente esquecidas após comoverem quando estão na mídia, substituídas pela tragédia do dia. Como é mesmo o nome daquela adolescente de Caxias que, no mês passado,peregrinou em busca de atendimento até a morte? Por que mesmo ela morreu?
Dora Chor 1, Katia Silveira da Silva2, Maria
Teresa Cravo Almeida3, Silvana Granado4 e Luciana Santiago Tavares5
1. Médica e pesquisadora da Ensp/Fiocruz; 2. Médica e pesquisadora do Instituto Fernandes Figueira (IFF/Fiocruz); 3. Médica da Secretaria de Estado de Saúde e Defesa
Civil do Rio de Janeiro (Sesdec/RJ); 4. Enfermeira e pesquisadora da Ensp/Fiocruz; 5. Médica da Sesdec/RJ. KSS, MTCA e LST integram o Comitê de Prevenção e Controle de
Morte Materna e Perinatal do Estado do Rio de Janeiro. Pós-tudo
Matéria publicada na revista RADIS COMUNICAÇÃO EM SAÚDE - N 57 - MAIO DE 2007
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