Diagnóstico
Diagnosticada, rotulada e despachada para consumo social.
Sem preconceitos aparentes.
Estável é o estado, doença controlada para a vida.
Sou bipolar...
Adeus depressões
Adeus euforia
Agora é assim que escrevo prosa para a vida.
Agora não
Agora só
Agora enfim para a vida.
Diagnosticada, embalada para tudo e por nada
Despachada em prólogo do futuro
Já tenho a família de nervos em franja comigo, deixei de ser independente, limito-me a heroicamente conseguir fazer o básico do dia-a-dia.
Não sei se consigo sobreviver a mim própria e para não parecer deprimente, digo já que estou com muito boa
vontade para ultrapassar o caos que banha o meu estado emocional, que seguramente é de alguém fragilizado que conjuntamente convive com a eminente regressão laboral generalizada a todos os Portugueses e não só.
A primeira vontade de descambar nesta insuficiente forma de
vida será travada pela contenção de impulsos, que seguramente me trará alento para continuar a procura da estabilidade e estruturação que tanto necessito.
A pouca energia que guardo no meu
pequeno cofre segura os sonhos, o romance e nostalgia estão na iminência de ser expostos a um tamanho disse que disse que nem eu mais entendo. Baralharam-se perderam corpo e andam de mão dada com alguém que eu já não conheço.
Tudo me falta, a minha vida, os livros, a independência intelectual que agora está ligada fortemente à medicação, resultando num absurdo de reacções periféricas distantes do meu ser, digo disparates e tenho pensamentos não muito dispares dos que tive durante a minha outra vida encapuçados na falta de consumir os meus relicários.
Alfama "O Bairro"
A vila dentro da cidade, chafariz, escadinhas, becos, largos, ruas e arcos são a combinação urbanística de Alfama rodeada por igrejas, capelas, a Sé, o São Vicente, o Castelo, o Panteão e todas as casinhas, com janelas de tabuinhas e sem, cada esquina um pequeno ermo de delícias, de onde fontes jogam água por bocas de leões e onde sossegadamente me sento num acalorado
Dia de Setembro e desfruto deste misto.
Vejo passar alguns turistas que olham para mim e vêm-se no meu lugar, comparam atitudes e algumas vezes, os mais atrevidos, juntam-se a mim e ali ficam a olhar para o infinito por instantes para logo se levantarem e continuarem o seu roteiro turístico que urge a ser cumprido.
Alfredo o “ pintoso ”
Dei conta dele quando tinha 16
anos num pequeno clube recreativo “O Corvense”, dilava coca e fazia parte de uma turma que fornecia uma parte da alta sociedade relacionada com artes, espectáculos, moda e alguns magnatas suspeitos.
Sempre teve uma atitude que revelava um grande à vontade com os filamentos da vida, por conversas percebi que já tinha sido preso, por pouco mais de duas gramas de coca, pouca sorte.
Encontrei-o agora passados 20 anos reabilitado, passou por ocupações como camping, arqueologia, e recentemente é contínuo de um liceu, que por sinal eu frequentei o Gil Vicente.
O Alfredo tornou-se, num curto espaço de tempo, na pessoa que me acompanhou, aconselhou e tanto me inspirou.
O nosso
encontro era diário num lounge de bairro, gerido por umas austríacas. De decoração atípica e típica, onde humildes mesas de sala de jantar habituais dos residentes de Alfama preenchem o espaço, com alguns confortáveis sofás de orelhas e cadeiras de baloiço.
Deram lugar a intermináveis conversas e silêncios, próprios de pessoas que já se conheceram e têm
tempo para voltarem a revitalizar e deambular por 20 anos de ausência de contacto.
Sussurros e risos, análises e bocas tudo num envolto e consistente discurso de vida, de maturidade extrema, surpreendente dado a diversidade de elementos.
História
Que não seja triste a única, a minha de uma mulher de sucesso a uma mulher desesperada por alcançar alguma satisfação de qualquer tipo.
Muitos restarts devem existir na vida este é mais um.
Encontro
De salutar todos os encontros mais ou menos fortuitos, desagradáveis ou extremamente surpreendentes, encontrar desesperadamente o meu nos outros, identificar-me, deixar a solidão para trás, falar, retorquir, inteirar-me de uma vida que já foi a minha que durante algum tempo deixei.
Saudades
De ti de mim, de tudo e de nada, salto de vontade assumida para a grande incerteza e logo a seguir sinto saudade da minha vontade, não sei o que quero. Decisões de vida não são comigo neste momento, avanço e retrocedo muitas das vezes sem razão aparente, enfim saudades do que não tenho vontade de ser.
Elas
Grandes, pequenas, crescidas, crianças, muitas, mãe e filhas, amigas, felizes, realizadas, reais, desesperadas não menos que eu.
Eles
Homens, já diz a minha filha Maria “a mãe sabe como são não devemos ligar muito ao que pensam”. Ou será ao que sentem, como agem e ainda ao que eu sinto por aqueles que amo.
Diversidade uniforme, ainda mais que um , todos aqueles que me amaram, choro todos, mais aqueles que vou deixar de amar, mais aqueles que ainda vou amar.
Por eles todos, os homens na minha vida.
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