equívoca e descabida: a Igreja Católica não foi “abolida” por nenhuma
burguesia. Na verdade, a instituição “igreja católica” continua viva no Cristo que se reafirma nos credos cristãos nascidos dos cismas e do protestantismo em várias situações. Dou um exemplo pequeno no caso de algumas igrejas protestantes como a Batista que, hoje em dia, está em constante diálogo com a Igreja Católica. Quem tentou destruir o cristianismo como um todo foi justamente o revolucionário comunista na perspectiva do materialismo histórico de Marx e Engels e não a “burguesia”. O brocardo “burguesia”, aliás, é utilizado de forma também descabida pelos adeptos das velhas análises históricas que entendem de forma maniqueísta o mundo como esquerda boa versus direita má. Não é bem assim, justamente porque o que o texto nos remota é
exatamente o espírito revolucionário, a idéia de que uma certa classe de “escolhidos” se acha com autoridade de mudar o mundo “desconsiderando o
passado”. Uma observação, por exemplo, no protestantismo inglês originado de um cisma com o catolicismo romano revelará que, apesar de Henrique VIII ter mudado vários pontos do catolicismo, sua igreja manteve a hierarquia da igreja católica e várias outras características (fato, aliás, que gerou críticas por parte do puritanos ingleses). Assim, não houve uma revolução burguesa aos moldes do revolucionário no sentido dado no texto, mas, ao contrário, antes de propor mudanças, os pensadores protestantes analisaram e estudaram com paciência toda a história da igreja e suas determinações filosóficas fundamentais. É lógico que interpretações políticas depreciaram os interesses religiosos de Lutero, mas isso não pode reduzir o protestantismo a uma “revolução” aos moldes do comunismo! Segundo, a própria confusão, típica dos esquerdistas, de reduzir toda história na luta de classes e no ciclo “ordem estabelecida que é quebrada por um revolucionário criador de nova ordem” e assim por diante. Classificar a “burguesia” de revolucionária seria correto apenas se esta “classe criada” estivesse tomada pelo sentimento “místico” de que pode mudar o mundo e tem a verdade dentro de suas leis internas esquecendo-se do ensinamento do passado. Coisa que é contraditória, aliás, com a própria interpretação
esquerdista: ou seja, se a burguesia é composta pelos “maléficos capitalistas que querem lucro acima de tudo”, qual a vantagem da quebra da ordem econômico-social por uma revolução, fato que, certamente, geraria uma insegurança jurídica para os negócios? O autor da nota aproxima o
termo “burguesia” do termo “conservador”, o que demonstra um não entendimento correto do que foi dito. Ora, o conceito de conservador pode ser resumido como aquele que segue a contemplação racional antes de ação, evitando decisões radicais de mudança impensada da ordem o que geraria uma situação pior. O conservador defende a paz social acima de tudo. No próprio texto, foi dito que “o radicalismo de qualquer tipo que desconsidera o passado e a segurança da tradição” é exatamente o fulcro criador do caráter revolucionário que diretamente se alia ao projeto esquerdista como se pode notar facilmente em todos os livros politicamente revolucionários de Lênin a Paulo Freire e de Stalin à Escola de Frankfurt. Outro erro crasso é dizer que houve uma “revolução da burguesia” seguindo o ideário romântico do esquerdismo historiográfico sob o prisma justificador da revolução francesa.
Olavo de
Carvalho afirma exatamente que tal proposta é feita conforme uma “elegância geométrica” decretada pelo marxismo. Segundo esta leitura, uma ascensão crescente da economia capitalista teria a levado a sociedade ao colapso, obrigando o estabelecimento de uma nova ordem jurídica. Ora, o passo inevitável posterior seria justamente o aparecimento da revolução socialista. Contudo, esta é uma invenção falaciosa do projeto historiográfico e cíclico esquerdista, já que a “revolução francesa” não teve início com uma “revolução burguesa”, mas partiu evidentemente de uma ação dos camponeses que tiveram suas terras compradas pelos aristocratas e só secundariamente dos comerciantes sem títulos de nobreza (ou seja, os burgueses tiveram participação secundária no início do processo revolucionário francês!). Estas considerações estão mui bem expostas no texto de Olavo de Carvalho
História e Ilusão em http://www.olavodecarvalho.org/textos/historia.htm. Por isso, o termo “revolução burguesa” é totalmente indevido e contraditório em nível historiográfico e filosófico, passando a ser mero artificialismo esquerdista para recriar o mito de Joaquin de Fiore sobre o “suporte cíclico para a salvação final”: - Somente os “escolhidos” poderão salvar os homens do reino terrestre e levá-los para o paraíso comunista que ocorrerá na próxima idade eternamente esperada. Qualquer ato do presente, desde que parta deles, será considerado verdade universal e aceito mesmo que, por ventura, pareça totalmente irracional. Assim, até mesmo a reconstrução da história e a criação de palavras mentirosas e conceitos pagãos tal qual a boa e velha “revolução burguesa”, terão que ser coladas ao cérebro das massas torpes de preferência desde pequenos, nos bancos escolares e nas juras universitárias... Enfim, é uma nota com poucas palavras e muitas calamidades...
Mais sinopses sobre Comentário do Comentário de Afonso de Oliveira sobre o texto Olavo de Carvalho parte II