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CELULAR E ABORTO – UMA RELAÇÃO INCONVENIENTE

por : aqquino    

Autor : Tiago Tondinelli
CELULAR E ABORTO – UMA RELAÇÃO INCONVENIENTE
Antigamente, quando, no lugar de rua tinha capinzal
e árvore à solta, a molecada saía cedinho de casa para caçar e pescar sob a rígida lei do pai. Era só voltar para casa com qualquer machucado diferente ou roupa destruída que a surra era certa.
Quando saía para reunir-se com os amigos, o menino levava consigo apenas o mandamento do pai e, é claro, o medo da possível surra se erradamente procedesse. A sorte era dele e o desafio do acaso era escolhido somente por ele e ninguém mais. Assim, aprendia, desde cedo, a encarar os desafios, a agir em conformidade com o que poderia suportar e, acima de tudo, a propor limites para suas próprias ações cujas conseqüências seriam sentidas imediatamente apenas por ele e ninguém mais. Os pais não sabiam direito onde os filhos estavam e supunham que brincavam pelas ruas ou pelos campos seguindo as normas que tanto lhes foram passadas a pau e ferro.
Ontem, o Estado de São Paulo noticiou que a maior venda esperada do Natal será a dos celulares para as crianças. É aquela busca desenfreada por um aparelhinho que tira foto ou outro que manda mensagens quase de graça segundo um plano camarada. O que ocorre, por outro lado, é a ascensão da “mamãe de bolso”, pois, diferente dos tempos idos, os garotos “geração celular” irão encarar tudo sem nenhum senso de responsabilidade ou medo de situações inesperadas, pois, no bolso, está brandindo a mamãe, esperando para ser chamada em qualquer situação difícil. Os filhos não se perdem nunca mais pois são facilmente localizados pela mamãe com um mero apertar de botões. O senso ético, naturalmente nascido da solidão do eu com sua própria consciência, cai na mazela da dependência não dando espaço para a ascensão do senso de responsabilidade.
A personalidade passa, então, a ser mero objeto de utilidade, tanto da mãe, quanto do garoto. A mãe não é mais a entidade que passou por mais experiências e, por isso, é fonte de aprendizado necessário e passa a ser uma central telefônica de ajuda nas situações emergenciais, uma garantia da “telefônica” como o 190 que chama o policial nas emergências.
A transformação da mãe em utilidade é a tétrica faceta da família do século XXI que não é apenas constatada na questão do celular, mas também em outras situações de ampla discussão, até mesmo próprias do foro ético. Uma delas é o caso da lei que tenta descriminalizar o aborto cuja defesa principal é atribuída: primeiro àqueles que crêem no possível “atraso” da vida da garota em virtude da criança inesperada e segundo na quantidade imensa de mortes registradas no Brasil em virtude dos ‘abortos em clínicas ilegais e uns outros feitos em casa com remédio da farmácia’.
Esta segunda premissa é de falsidade extrema justamente porque independente de liberar ou não o aborto, as pessoas mais pobres continuarão fugindo dos hospitais por falta de planos de saúde e da ineficiência do SUS e continuarão abortando em clínicas ilegais ou utilizando remedinhos comprados nos balcões das farmácias. Já os mais ricos continuarão a fazer como sempre fizeram, ou seja, abortando com o médico amigo da família no hospital particular sob o sigilo das notas de reais no final da semana. A legalização não mudará em nada a realidade fictícia criada pelos jornais brasileiros.
Contudo, a primeira premissa, diferente da ineficiência da segunda, trará uma conseqüência nefasta para a sociedade a qual se assemelha à questão do celular abordada no início do texto. Quando a mamãe chegar na filhinha recém-grávida e dizer - Filha, você tem que se cuidar mais! A mamãe vai levar você pro médico, tirar esse inconveniente, mas, depois, a botaremos em um spa por uns dias! – estará transformando a vida intra-uterina em objeto utilitário apto a ser trocado em qualquer instante.
Assim, da mesma forma que a mamãe, pelo celular, vira objeto de utilidade que gera o fim da autonomia e responsabilidade do filhote, o aborto fará o mesmo coma mocinha descuidada. Neste caso, o feto morto vira objeto de utilidade, ou melhor, torna-se um mero problema “gastro-intestinal”, uma prisão de ventre que é facilmente resolvida com um remédio específico. O peido que alivia a dor da prisão de ventre é aproximado do feto que, morto, alivia a dor moral da cabeça da moça, essa sim, cada vez mais, cheia de “ventos com cheiro nada agradável”.
 
Publicado em: novembro 26, 2007
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