Os últimos homens a fazer contato com o jato que colidiu com o
Boeing da Gol
relatam seu drama à DINHEIRO
(coletado do portal Terra, em 14/11/06)
17h daquela sexta-feira. A rotina do CTA, em São José dos Campos era normal. Os controladores com os olhos fixos na tela de controle e nas fichas de progressão de vôo ao lado do monitor.Virar a cabeça para o lado é arriscado.
Levantar então, proibido. Havia quatro pessoas no controle, quatro em descanso e os demais noutras tarefas.
"De repente o vôo da Gol desapareceu" conta o sargento da aeronáutica, Pedro
(nome fictício) "naquela região não há visualização-radar. Esperávamos o Gol entrar em contato e não aconteceu. Já tinha tentado sete contatos com o Legacy para avisar que o transponder estava desligado e que ele entraria numa região não-radar. Não consegui. Fizemos contato com o Cindacta IV, em Manaus para saber se o boeing da Gol havia feito contato, mas ninguém sabia. Estávamos numa situação de incertezas e, pelo regulamento, depois de 30 minutos, sem a localização da aeronave é que passamos para o estado de alerta. Nesse meio tempo soubemos que o Legacy havia feito
um pouso forçado em Cachimbo (MT). Até aí tudo bem, um pouso forçado não é motivo para desespero. Em seguida fomos avisados por Manaus que o Legacy havia batido em algo na descida e não sabia o que era. Nossa ficha caiu. O desespero tomou conta de nós pois como poderia acontecer algo se o Legacy estava no nível 360 e o vôo da Gol a 370! Em Teres o plano do Legacy era subir para 380, mas por algum motivo ele desceu. Só conseguimos pensar nos mais de 150 passageiros da Gol. O desespero tomou conta de todo mundo. Vivemos sabendo que a possibilidade de acidente existe, mas nosso
trabalho é evitá-la."Uma psicóloga é chamada às 18h e uma equipe que estava de folga é acionada e assume o controle. Os 12 que saíam foram tratados em grupo e mandados para casa, mas, isolados em casa nenhum controlador consegue dormir sem ajuda de remédios.
Um deles, Isaac, toma 1 mg de Lorazepan por noite. "Perdi 5 kg. Saio de casa
às 8h e não chego antes das 24h. Fico imaginando a cena do acidente, que
passa como um filme na minha cabeça. Choro ao ver as cenas: a mão rígida do
piloto agarrada ao manche. Ele morreu lutando contra a aeronave. Meu
casamento está por um fio. Minha mulher não diz nada. Só fica calada.”
Isaac não pretende largar a profissão quer voltar logo ao CTA. Pedro
não. Aos 22 anos quer voltar para a casa dos pais. Eles não sabem que ele está afastado por atestado psiquiátrico. Ele tem pesadelos, não consegue dormir, nem comer. Não sai de casa e a sua vida social acabou. Um consolo: as caixas-pretas mostraram que não houve pânico nem tumulto. Após o choque, o avião caiu verticalmente e todos perderam os sentidos, o que pelo menos teria reduzido o sofrimento a bordo.
Publicado em: novembro 24, 2006
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