Rússia joga fora quase a metade do combustível que consome
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Rodrigo Fernández
Em Moscou
Qualquer viajante que sobrevoe a Sibéria de helicóptero verá de vez em quando clarões cor-de-laranja na imensa planície branca: é o gás que sai junto com o petróleo cru e que simplesmente é queimado. Esse mesmo viajante, ao hospedar-se em Moscou no inverno, poderá descobrir que em seu quarto faz um calor infernal e será obrigado a abrir as janelas, já que a maioria dos aquecedores não é regulável.
O principal problema que a Rússia enfrenta: a falta de economia e eficiência na hora de consumir energia, que é aguçada pelo aquecimento que estão experimentando algumas regiões do país. As chamas vistas do ar e as janelas abertas são as expressões por excelência do desperdício, é a atitude russa diante do consumo de energia.
Sendo assim, não é de estranhar que o potencial de economia energética nesse país seja enorme, afirma Igor Podgorni, do Greenpeace Rússia. Das 900
toneladas de combustível convencional consumidas anualmente, se desperdiçam entre 360 e 430 toneladas. Traduzido em petróleo, são cerca de 250 milhões de toneladas, cifra equivalente às exportações de petróleo cru da Rússia.
Os progressos para um consumo eficiente são mínimos: há apenas três anos se permitiu que as pessoas ponham
medidores de água em seus apartamentos, mas os medidores de calefação são inexistentes. O uso de combustíveis é culpado por 81% das emissões de
gases do
efeito estufa na Rússia. "Só melhorando a eficácia no uso da energia poderíamos diminuir quase pela metade essas emissões. Infelizmente, isso não acontece", lamenta Podgorni.
Hoje a Rússia emite 1,5 bilhão de toneladas de CO2, o que a situa em terceiro lugar no mundo, atrás dos EUA e da China. E se as emissões per capita da Rússia são comparáveis às de outros países desenvolvidos, não acontece assim por
unidade de PIB. "Aqui esse índice é de 1,2, enquanto nos países
desenvolvidos não supera 0,5, isto é, nós gastamos entre 2,5 e três vezes mais energia para produzir uma unidade de PIB. Produzimos menos que eles, mas emitimos mais", explica Podgorni.
Segundo o Greenpeace a Rússia olha para o futuro de maneira equivocada - "Infelizmente, nos planos governamentais se dá importância primordial às centrais de carvão, o principal poluente; e também se insiste nas grandes usinas hidrelétricas e na energia atômica, com todos os riscos que esta representa."
Enquanto isso, a energia renovável é subestimada. Ainda não há leis a respeito, por isso ninguém embarcará em um grande projeto para utilizar a energia eólica ou solar, já que não há lei que obrigue a incluir a eletricidade assim gerada nas redes de distribuição.
Outro fator que contribui para não dar a devida importância às emissões de gases do efeito estufa é a opinião, difundida inclusive no mais alto nível político, de que o aquecimento beneficiará a Rússia. Até o presidente Vladimir Putin disse que "se a temperatura subir 2 ou 3 graus nada terrível acontecerá; ao contrário, talvez seja bom: gastaremos menos em casacos de pele".
Por sua parte, Konstantin Pulikovski, chefe do Serviço Federal de Controle Ecológico, Tecnológico e Nuclear, declarou em maio que nos próximos cem anos não vê qualquer ameaça para a Rússia causada pela mudança climática.
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