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Review by : marcola
Visitas : 94  palavras: 600   Publicado em: outubro 31, 2007
Dona Nair queria usar o banheiro do metrô

O pleito da "munícipe"
não podia ser atendido, pois
faltava "um empregado
fixo no posto sanitário"

O TRANSPORTECA é um tipo especial de burocrata. Lida
com os transportes públicos,
mas não anda de metrô, ônibus ou
trem. Para ele, o passageiro chega a
ser um estorvo, pois congestiona a
malha que tanto aprecia. O transporteca é capaz de confiscar descontos no metrô (São Paulo, 2005) ou
de lançar cartão de fidelidade sem
bônus (Rio, 2007). Ele sustenta uma
briga de seis anos na Justiça para
impor a exigência de carteirinha especial para cães-guias de cegos (São
Paulo, 2000-2006). O patrono dessa
espécie poderia ser o doutor Milton
Zuanazzi, da Agência Nacional de
Aviação Civil, caso entendesse alguma coisa do assunto, mas foi apenas
um leigo articulando o caos.
Um transporteca tucano sustentou que o bilhete único, instituído
pela prefeita Marta Suplicy em
2004, seria uma desgraça. Se desse
certo, congestionaria a rede pública
de transportes. Em outras palavras:
se a patuléia usar os ônibus, a cidade
se dana.
Com elevados padrões técnicos, o
transporteca é capaz de contratar
um tatuzão para cavar o buraco de
uma linha de metrô subordinando-o
à exigência de que seja novo. (Claro,
havia um usado disponível no mercado internacional e custaria menos.) No mundo das necessidades
cotidianas, ele é um animador do
folclore da burocracia.
Um exemplo: em junho passado, o
secretário Andrea Matarazzo, da
Prefeitura de São Paulo, estava na
estação Guaianazes do metrô quando Dona Nair Souza Aguiar, uma
simples cidadã, contou-lhe que um
dos dois banheiros públicos vivia
trancado. Matarazzo encaminhou a
reclamação da senhora e, no dia 18, a
gerência de operações de estações
informou:
"A estação possui nos terminais
Norte e Sul sanitário público masculino e feminino (...). Atualmente só
os sanitários do Terminal Sul estão
abertos ao público. Os sanitários
do Terminal Norte estão sendo utilizados somente pelos empregados
da empresa prestadora de serviços
de segurança (Power) há mais de
quatro anos, em razão da otimização
de custos (energia elétrica, água,
potes de limpeza e material domissanitário)."
"Lembramos que elaboramos, recentemente, minuta de resposta (...) ao
possível atendimento a uma solicitação feita pelo consórcio Plus, para
a abertura dos sanitários (...) desde que seja firmado um Termo de
Permissão de Uso, obrigando a interessada a
responsabilizar-se pela manutenção, higiene e conservação dos mesmos,
além de algumas intervenções necessárias para permitir o uso comum com
a empresa de prestação de serviços de segurança. Ainda assim, não seria
possível o atendimento do pleito encaminhado pela munícipe srª Nair
Souza Aguiar, pela dificuldade em disponibilizar um empregado fixo no
posto sanitário."
A choldra pagou pela construção
do banheiro, mas ele não poderia ser
usado porque foi privatizado para a
empresa de segurança. Trata-se de
uma instalação bonita, confortável,
que deve ter custado um bom dinheiro a gente como dona Nair.
Construí-lo foi relativamente fácil,
mas botar uma pessoa para cuidar
do movimento seria coisa de grande
dificuldade.
A boa notícia é que dona Nair ganhou a parada. Seu pleito acabou na
mesa do presidente da Companhia
Paulista de Transportes Metropolitanos, Alváro Armond, e o banheiro
foi aberto na marra. Transformou-se num estudo de caso para ensinar
aos transportecas como se deve trabalhar num serviço público.

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