O
sangue é sagrado!
Sergio Ferraz
Uma das religiões, não só no Brasil, mas em praticamente todo o mundo, que sofre mais discriminações e por isso mesmo gera mais polêmicas, é a chamada Testemunhas de Jeová. No Brasil a polêmica existe por causa da não aceitação por parte das Testemunhas, da transfusão de sangue. A mídia já explorou o assunto anos atrás, mas os religiosos não abriram mão de sua convicção a esse respeito.
Recentemente surgiu um boato de que finalmente as Testemunhas iriam aceitar as transfusões sanguíneas e eu procurei falar com o comerciante Raimundo Cândido da Silva, 66, com 40 anos participando das Testemunhas de Jeová. Ele é considerado um ancião dentro da sua religião, já que as Testemunhas não têm pastores ou padres. Os anciãos é que dirigem as congregações, chamadas de Salões do Reino. Silva explicou que é apenas um boato, pois as Testemunhas continuam não aceitando as transfusões. Não é uma proibição. Depende da consciência de cada um, mas na Bíblia Sagrada, em várias passagens, Jeová (Deus) fala sobre o sacramento do sangue. Só há um sangue que salva, que é o de Jesus. Desde a passagem de Abel e Caim, até o Novo Testamento, mostra a Bíblia que o sangue é sagrado. No livro de Levítico, por exemplo, capítulo 17, versículos 11 a 15, cita que quem usasse o sangue para qualquer finalidade, seria morto. Quem entende a Bíblia, não aceita a transfusão, diz Silva, convicto. Ele mesmo disse que chegou a ficar gravemente ferido num acidente em São Paulo em 1967, e não aceitou a transfusão, apesar da grande perda de sangue.
A religião Testemunhas de Jeová surgiu nos EUA, através de um grupo de estudantes da Bíblia. Entendendo literalmente a ordem de Jesus de ir a todo canto da Terra pregar o Evangelho, eles começaram a fazer isso e o grupo foi crescendo tanto, que acabou se transformando na denominação religiosa Testemunhas de Jeová, a partir de 1935. Com milhares de adeptos, a religião foi se espalhando através de grupos de estudo da Bíblia, pelos quatro cantos da Terra. Hoje, do Brasil à Colômbia, da Europa aos Estados unidos e nos continentes asiático e africano, você encontra um grupo de Testemunhas de Jeová.
Por causa de preconceitos religiosos, eles sofrem perseguições em vários paises e durante a Segunda Guerra Mundial, muitas Testemunhas foram parar em campos de concentração nazistas. Os judeus eram identificados com a Estrela de Davi, e as Testemunhas, por uma tarja amarela no braço. Malgrado tudo isso, os adeptos da religião aumentaram como nunca. A sede das Testemunhas é nos EUA, onde é conhecida por Sociedade Torre de Vigia de Bíblias e Tratados. Além do trabalho de casa em casa, eles ainda publicam quinzenalmente duas revistas (Sentinela e Despertai!), com uma tiragem média de mais de 22 milhões de exemplares, editados em 132 idiomas! As Testemunhas operam hoje em 239 países.
A norma de trabalho das Testemunhas é ir nas casas, à convite das pessoas, e efetuar um estudo das Sagradas Escrituras de acordo com o que a pessoa quer aprender. Quanto ao também boato apregoado por alguns religiosos de que as Testemunhas de Jeová não acreditam em Jesus, Silva refuta: Mas como podem dizer isso, se toda a base do nosso trabalho e crença está em Matheus 24.14, onde o próprio Jesus dá ordens para se pregar o Evangelho a todas as criaturas?
Estariam as Testemunhas erradas?
De acordo com um boletim de 29 de março de 2000, com o título Médicos Evitam Transfusões de Sangue, o médico faz de tudo para evitar a transfusão de sangue, segundo palavras do dr. Stephen Pollard, famoso cirurgião da Grã-Bretanha, especialista em transplantes de órgãos. O boletim cita que dr. Pollard chegou a essa conclusão após um transplante de rim no Hospital St.. James, Leeds, Grã-Bretanha, em 10 de março de 2000. Além da cirurgia sem sangue representar uma economia, os pacientes ficam mais satisfeitos. Não havendo necessidade da transfusão, a recuperação é bem mais rápida, disse ele.
O porta-voz do hospital, falando à imprensa,disse que três fatores tornaram a cirurgia inédita: O casal pertencia à religião das Testemunhas de Jeová, a doadora do órgão foi a própria esposa, ou seja, foi um doador não-consanguíneo e a cirurgia foi feita sem a necessidade da transfusão de sangue. Com essa, de acordo com a notícia, chega-se a quase 100 cirurgias realizadas até hoje no Hospital St. James, sem transfusão de sangue, o que vem contribuindo para o avanço no campo das cirurgias, e que talvez possa por fim a um dos maiores problemas médicos, que é a falta de doadores.
A Comissão Científica do 1º Congresso Europeu de Tratamento sem Sangue, realizado em maio, em Genebra, Suíça, declarou que evitar a transfusão alogênica está se tornando o novo tratamento padrão. Em São Paulo, o cirurgião Sérgio Almeida de Oliveira, que já realizou 91 operações cardiovasculares sem transfusão em Testemunhas de Jeová, diz que muitos pacientes podem ser submetidos a uma cirurgia cardíaca sem uso de sangue ou derivados, com boa margem de segurança.
Assim, as Testemunhas de Jeová aceitam o tratamento médico, mas não a transfusão de sangue. Quanto a transplantes de órgãos, eles dizem que não há nenhum comentário bíblico a respeito, ficando a critério do paciente.
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