Em fins do século XIX, os trabalhadores do porto concentravam-se no bairro da Saúde, no Rio de Janeiro, verdadeiro reduto de usos e costumes trazidos da Bahia. Nas horas de folga, saíam à procura dos "tios" e "tias", babalaôs famosos que costumavam realizar em suas casas animadíssimas reuniões musicais. De todas, a mais conhecida era a "babalaô Omim", ou "tia Ciata". Em sua casa,
negros, brancos, mulatos
reuniam-se para cantar, beber, batucar e dançar "sambas" - um
ritmo estranho e particular, nascido no meio do povo. Enquanto esperavam dias melhores, aproveitavam as poucas horas de folga para
sambar - embora a maior parte deles não soubesse exatamente qual era o signficado de sambar. Sambar, por exemplo, era uma volta a tempos idos, ancestrais passados, época de escravidão, quando angolanos e congoleses, tristonhos e saudosos, reuniam-se nas senzalas e batucavam. Inocentemente brincavam de dançar: a umbigada, a dança de pares, a dança de roda, a dança em fileiras. Mexiam o corpo livremente, como sempre fizeram na terra que haviam deixado muito longe, além-mar. A palavra samba teria sido formada por dois termos africanos - "sam" e "ba" - que significavam "pague" e "receba". Entretanto, a versão mais aceita considera-a uma corruptela de "semba", sinônimo de umbigo no dialeto dos escravos vindos de Angola e do Congo, usada pelos negros africanos para designar a umbigada que os dançarinos de batuque davam para chamar um substituto depois de dançar na roda. Até a segunda década do século XX, o samba era confundido com o maxixe, tango e a polca, abrasileirados pelo modo de tocar e pelo instrumental dos chorões (violão e cavaquinho), influenciado, ainda pelo lundu e pela modinha. A música do negro era uma criação coletiva, não tendo uma
autoria definida. Não havia a preocupação de propriedade da música entre os negros. Tratava-se de uma primeira parte de letra fixa (de autoria desconhecida) e a segunda com versos improvisados na hora. As rodas de batuque - as famosas batucadas cofundidas mais tarde com a também violenta capoeira - eram proibidas pela polícia. Só entravam nelas os malandros conhecedores das regras da dança, considerados os "bambas" da época. No Rio essas rodas tiveram os nomes de caxambu, jongo, partido alto e mais tarde, rodas de samba e batucadas. Jovens compositores do início do século - Pixinguinha, Donga e João da Baiana - reuniam-se na casa de Tia Ciata onde criaram uma forma musical por vezes híbrida porém personalística e
brasileira. Segundo alguns críticos, o primeiro
samba gravado foi Em Casa da Baiana (1911), de autoria desconhecida e executado por um conjunto instrumental da casa Faulhaber. Mas foi o samba Pelo Telefone, de autoria de Ernesto dos Santos, o Donga, que marcou o início "oficial" e o sucesso dessas gravações. Gravado em 1917, Pelo Telefone marcou época não só pela polêmica em torno de sua autoria, mas também pela crítica aberta feita à corrupção policial que imperava na época. Em seu ritmo eram perceptíveis reminiscências do batuque dos negros, estribilhos do folclore nordestino e sapecados do maxixe carioca. Donga acabou entrando para a história da música popular brasileira como o primeiro compositor que se preocupou em oficializar a existência do samba como composição e como ritmo. Sinhô (José Barbosa da Silva) também se tornou conhecido como sambista a partir da primeira gravação. De gênio bastante explosivo, envolveu-se em contendas musicais com Donga a respeito do verdadeiro autor de Pelo Telefone. Sinhô foi o grande responsável pela divulgação e popularização do samba, integrando-o na música popular brasileira, com tal talento, que recebeu o título de Rei do Samba. Pixinguinha e os Oito Batutas pretendiam demonstrar que um conjunto musical podia se tornar famoso com o samba, abrindo, inclusive, caminho para formação de novos grupos. No fim da década de 1920, Benedito Lacerda organizou a Gente do Morro. E com o Bando de Tangarás, reunido nos princípios da década de 1930 por iniciativa de Almirante, João de Barro, Alvinho e Henrique Brito, surgia a figura de Noel Rosa. Sem dúvida o advento do disco fonográfico e do rádio contribuíram para o maior interesse dos compositores populares, para compor com maior freqüência para as festas da Penha e do carnaval carioca. O samba, de acordo com o andamento, costuma classificar-se em: - samba-canção, cujo modelo mais inspirado seria o Rancho Fundo; de Ary Barroso e Lamartine Babo; - samba-exaltação, muito em moda nos anos 30 para 40, e que teria em Ary Barroso seu primeiro cultor, com a insuperável obra Aquarela do Brasil; - samba de breque, nascido com Luiz Barbosa e Silvio Caldas, no início dos anos 30 e mais tarde, identificado com o cantor Moreira da Silva, para os sambas de Miguel Gustavo; - samba de terreiro ou de quadra, cantado e dançado nas escolas de samba, fora da época de carnaval; - samba de partido alto, tipicamente de origem negra, tal como o jongo, e que permanece até hoje nos terreiros de samba e pagode; - choro, chorinho ou chorão. Exemplos, Pedacinhos do Céu; e Brasileirinho; , de Waldir Azevedo, sendo em certa época conhecido como samba-choro; samba-de-enredo, produzido de encomenda sobre determinado tema e enredo para o desfile das escolas de samba; - samba-de-balanço, meio caminho para a futura bossa-nova.
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