Cada língua possui uma abordagem distinta para a mesma realidade, mas suas diferenças podem ser apenas aparentes.
Que o amor é complicado ninguém questiona. O povo boro, na índia, tem um vocabulário aparentemente bem mais atento às nuances desse sentimento do que muitas línguas: para eles Onsay significa ´´fingir amar``, Ongubsy, ´´amar de verdade`` e Onsia, ´´amar pela última vez``.
É como se certos povos vissem e sentissem certas coisas e fenômenos a que outros não parecem atentos.
Sentida diferente, a experiência humana é parecida em lugares, os mais diversos.
Cada língua tem ´´palavras de toque`` , cristais raros, que concentram a aventura humana de uma cultura.
A cultura dos povos manifesta-se principalmente por meio de sua língua.
Há termos que carrega uma forte carga cultural, e quanto mais intensa ela ela for, maiores serão as barreiras tradutórias.
Um dos maiores desafios do tradutor de obras literárias, é encontrar palavras que reflitam o estranhamento de uma realidade alheia _ homens, cores, plantas, odores e ritmos de uma cultura.
Pelas palavras dos outros vemos outras realidades, outras paisagens, comportamentos; que talvez estejam aqui também, entre nós, invisíveis porém.
O alemão produz muitas palavras compostas: ao se juntarem dois radicais, o significado de um se projeta sobre o outro, que gera um terceiro significado que, por sua vez não representa simplesmente a soma dos dois.
Há muito se acabou o zelo solitário dos léxicografos da Era Vitoriana.
Cada língua tem palavras ´´sem tradução`` mas a experiência humana é comum a vários povos.
O mito do intraduzível insinua um desejo de superação: O tradutor se debate com o ´´o genio da língua``, que ganha proporção de montanhas, abismos, imagens de pequenez e vertigem.
Os inimigos do tradutor são a ´´densidade`` (a opacidade), a ´´riqueza``, a ´´raridade`` (preciosidade) da língua a ser traduzida, que parecem sempre maiores do que a da língua para a qual se traduzirá, que parece estar estar em posição de deficiência, de falta.
No culto do intraduzível, há fascínio pela impossibilidade de dizer. Fascínio e medo: admiramos quem pode nos dizer o que não podemos, duvidamos de quem nos ensina a dizer o que antes não achávamos que podíamos.
ninamar
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