“Onde, senão no exacto início da vida, pode localizar-se a ‘inwardness’?” Num dicionário Inglês/Inglês, um dos significados
de ‘inward’ é ‘in or towards the mind or spiri’t. Assim, ao atribuir ‘inwardness’ aos primeiros momentos de vida e a toda a evolução biológica, Jonas considera que toda os seres vivos possuem uma alma, um espírito interior que os anima e que dá sentido (finalidade) às suas vidas. Todos são, consequentemente, portadores de valor intrínseco; valem por si e para si.
Este é um dado relevante na
filosofia de Jonas, uma vez que rejeita de todo e para sempre a ideia de um corpo sem alma, seja de uma planta, de um animal não humano ou de um homem que estejamos a falar. Os seres vivos são corpo e alma, sendo a conjunção integradora, não o mero resultado de uma conta de somar. E o homem, no topo (até agora) da evolução biológica, não é por isso um ser superior aos demais seres na natureza, mas um ser que, pela visão integradora e não dualista da vida, pode agora melhor compreender e ser compreendido pelo
mundo.
Temos assim uma sobrecarga em vez de um alívio nos trabalhos por capacidades excedentárias face aos restantes seres vivos. Em Jonas, o ponto de vista sobre a natureza ainda é antropocêntrico, colocando o ónus do conhecimento e da máxima ‘inwardness’ no homem, mas retirando-lhe o poder mais perigoso e imoral que é a presunção de superioridade.
Vamos agora esquematizar um pouco o sentido que Jonas dá à evolução biológica, acentuando novos aspectos. Existe uma hierarquia vital que se inicia com a emancipação de forma e matéria numa relação recíproca (matéria ↔ forma):
1. Numa primeira fase da vida, que se prolonga por toda a evolução, a dinâmica entre matéria e forma resulta em organicidade (através do metabolismo). “A forma orgânica suporta-se sobre uma relação dialéctica de necessidade e liberdade face à matéria.”
2. A identidade do organismo diferencia-se da matéria bruta através do tempo. O tempo é o modo qualitativo de apresentação da vida ao mundo. Com a vida, surge a finitude, a temporalidade.
3. Em termos de organismo vivo, ao contrário do que se passa com a matéria, não há um caminho para definir uma identidade externa, mas há persistência de uma identidade interna. Passámos, através da dinâmica alma/corpo, através do metabolismo, dos factos para os actos. 4. O metabolismo, a identidade interna e a persistência no tempo são as principais marcas de distinção entre um organismo vivo e uma máquina fabulosa, criada por um hipotético Deus matemático. Jonas recusa o mundo como uma equação matemática. Na continuidade da vida, o resultado é o próprio processo de luta pela sobrevivência. E lutamos com tudo o que temos: um corpo e uma alma interdependentes. O corpo é ânimo, a alma é corporal.
5. O mundo apresenta-se como um outro, como meio de subsistência e como caminho para a morte. A auto-identidade do ser vivo desenvolve-se numa rede de relações, interacções com o mundo; relações essas escolhidas de modo a preservar o mais possível a integridade própria e a vida do organismo. No contacto com o mundo surge uma nova categoria: a sensibilidade.
6. Desenvolvem-se duas categorias: a distância e o futuro. O que estava dentro é procurado agora fora de si, no mundo. Quanto ao futuro, ele abre-se à vida como adiamento de morte, como persistência, como sobrevivência, como possibilidade.
7. Neste estádio da evolução diferenciam-se os animais das plantas, segundo Jonas. É que às plantas não assiste a categoria da mobilidade. A mobilidade dá azo ao desenvolvimento da percepção. O animal é também, em certo sentido, mais livre do que a planta: é livre de movimentos.
8. Surge o sistema nervoso central. A emoção está ao rubro, no reino animal. É um ser mais livre, mas simultaneamente mais exposto à perigosidade do mundo. É um entre muitos na senda da sobrevivência. Aguçam-se todos os sentidos, mas há dois que governam a sua vida: a dor e o prazer.
9. O homem comporta todos os pontos anteriores, mas é mais: é consciência de si num mundo de que está à mercê.
Considerada a vida como valor intrínseco a preservar, resta um passo de gigante: a reconciliação do homem com a natureza.