O título do livro revela o que o autor considera ser o mais rico potencial da arte do cinama. Nele, expõe seus pensamentos
sobre o papel da arte e do cinema em particular. Na realidade, muito mais que isso, o livro reflete seu total compromisso com as questões essenciais relacionadas à vida e ao homem.
Andrei Tarkovsky não separa o seu trabalho artístico da sua condição humana. Ele entende o objetivo do seu trabalho e de sua vocação como “deveres e responsabilidades para com as pessoas” e espera que seus leitores se tornem “seus cúmplices espirituais”.
Para o autor, a criação artística não pode estar sujeita a leis absolutas e válidas para todas as épocas mas, estando ligada ao objetivo mais geral do conhecimento, deve contribuir para aproximar o homem de uma compreensão plena do significado da sua existência.
Tudo o que há de novo na arte surge em resposta a uma necessidade existencial e o cinema pode preencher o vazio
espiritual da vida nos tempos modernos se não se sujeitar às leis do mercado e interesses comerciais. A arte não deve apenas refletir mas transcender a realidade, influenciando-a a partir da sua “intangibilidade silenciosa” de onde nasce o seu poder transformador.
Em sua compreensão espiritual da vida, Andrei
Tarkovski considera o auto-conhecimento humano como o caminho para a própria evolução da humanidade. Reverte a própria noção de Deus ao afirmar que é “com a ajuda do homem que o criador vem a conhecer a si próprio.” Para ele, arte e ciência são meios de assimilação do mundo, um instrumento para conhecê-lo, em direção á ‘verdade absoluta’.
Toda época é marcada pela procura da verdade e, por mais horrível que ela seja, só pode contribuir para a saúde moral de um país. O sentido religioso da arte nasce desse compromisso com a verdade. O artista só pode expressar o ideal ético de seu tempo tocando em todas as feridas, sentindo na própria carne as dores dessas feridas abertas.
Na arte, uma forma de conhecimento estético, o homem apreende a realidade mediante uma experiência subjetiva.. A arte se dirige a todos, é para ser sentida; não faz uso de argumentos racionais, atua através da energia espiritual do artista, impregnada na obra.
A arte é uma metalinguagem de comunicação entre os homens e nada pode ter a ver com pragmatismo ou finalidades práticas, pelo contrário, deve vincular-se á idéia do amor, e este, à do sacrifício. A arte como um ato de amor e de sacrifício do próprio artista.
Andrei Tarkovski, deparando-se com a desoladora destruição da consciência do belo provocada pela cultura do consumo e de massas; com a perda da consciência espiritual, ele entende que o objetivo da arte deva ser arar e cultivar a alma do ser humano, fazê-lo capaz de voltar-se para o bem e prepará-lo para a morte. Quando o expectador se auto-reconhece diante de uma obra-prima ele pode alcançar as profundidades insondáveis de suas emoções e do seu próprio potencial; pode experimentar uma comoção espiritual sublime e purificadora, capaz de transformá-lo.
Na sua repercussão social, freqüentemente, as obras-primas se tornam o prenúncio de um choque entre o velho e o novo, de transformações profundas nos valores e costumes, apontam sinais de advertência sem, contudo, provar nada, explicar nada, responder a questão alguma. Sua influência tem a ver com a sublevação ética e moral e está essencialmente vinculada aos propósitos de elevação dos valores humanos e espirituais.
O laço se estabelece no campo afetivo e não intelectual, através da linguagem poética. Através das associações poéticas intensifica-se a emoção, tornando o expectador um cúmplice desse processo de descoberta de significados possíveis. Essa é a forma pela qual o público pode ser colocado em igualdade de condições com o artista. ”E, na verdade, do ponto de vista do respeito mútuo, só esse tipo de reciprocidade é digno dos procedimentos artísticos”
Por ser capaz de perceber as “ligações imponderáveis dos fenômenos ocultos da vida”, onde reside a beleza poética da existência, está ao alcance do artista criar “incalculáveis tesouros espirituais”. É o que faz quando consegue estabelecer uma ligação orgânica entre suas impressões subjetivas e a representação objetivada em sua obra.
“Cabe ao artista aceitar que ele é criação do seu tempo e das pessoas em meio às quais vive” e não imaginar-se que se cria livremente. A arte pode cumprir um papel importante para o desenvolvimento moral da sociedade expressando as aspirações e esperanças humanas. Frivolidades, objetivos utilitários e pragmáticos são inadmissíveis
O que importa não é a personalidade do artista, nem os seus valores pessoais; o artista, para Andrei Tarkovski, deve estar a serviço de uma idéia geral de caráter superior, universal. O que não significa esquivar-se da ‘sujeira’ do mundo, mas usar a imagem artística como uma metonímia, onde uma coisa é tomada por outra numa linguagem simbólica, capaz de atingir o expectador pela sua subjetividade. A dignidade do artista, que lhe confere o direito de criar, resulta da sua fé na própria vocação, da sua presteza em servir e da sua recusa em fazer concessões que firam os princípios elevados que devem nortear o seu trabalho. “As obras-primas nascem da luta travada pelo artista para expressar seus ideais éticos”
Em seus filmes, Andrei Tarkovski tenta substituir a causalidade narrativa por articulações poéticas que revelam, sobretudo, o mundo introspectivo e a densidade afetiva de seus personagens, com os quais nos identificamos em nossa frágil humanidade.