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Resumos e revisões curtas

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Nietzsche Vol.1

por : Wanessa Canellas    

Autor : Martin Heidegger
                A leitura heideggeriana
da obra de Nietzsche (1844-1900) é uma das mais importantes sobre o autor e nos dá bons indícios sobre o impacto e a reverberação contínua de seu pensamento corrosivo e libertador no campo da filosofia moderna. Martin Heidegger (1889-1976) estudou em Freiburg-im-Breisgau e teve professores como Husserl, que o iniciou nos estudos fenomenológicos, e Ricket que o apresentou à filosofia da Grécia Antiga. Em 1910, Heidegger entra em contato com o pensamento de Nietzsche – e de outros como Kierkgaard, Dostoiévski, Hegel, Schelling e ainda de poetas como Rilke e Tralk e as obras de Wilhelm Dilthey; o estudo sobre Nietzsche aqui apresentado é fruto de seu trabalho como professor na Universidade de Freiburg entre 1936 e 1940 – anos difíceis de uma Europa em guerra e sob o signo nefasto do nazismo – onde era professor desde 1928, substituindo seu antigo mestre Husserl.    Heidegger teve enorme apreço pela construção de uma nova perspectiva histórica e de novos projetos de mundo e a despeito de seu posicionamento político é indiscutível o elevado teor de seu pensamento e o estatuto de sua obra.
Este livro é antes de tudo um diálogo entre dois pensadores fundamentais para a história da filosofia e não somente uma (re)interpretação de conceitos de um filósofo por outro. Portanto, torna-se indispensável ter o entendimento de que a proposta de Heidegger ao ler Nietzsche é a de confrontar-se – Auseinandersetzung em alemão – ou melhor, de “pôr-se à parte um do outro”. Embora o termo confrontação sugira um distanciamento entre os dois e o atalho mais freqüente para um bom embate filosófico, podemos observar que o exercício heideggeriano é bastante refinado e através dele ainda temos a dimensão de que a obra de Nietzsche permite, promove e exige essa práxis. A partir deste enfrentamento é que surge também o próprio Heidegger em suas especificidades, sutilezas e idiossincrasias. A criação de conceitos tendo como força motriz a liberdade de pensamento é uma das características mais marcantes de Nietzsche já que outro conhecido comentador de sua obra – Gilles Deleuze (1925-1995) – também foi atravessado pelos questionamentos do filósofo alemão, tendo se detido longamente em algumas de suas temáticas. Embora as duas leituras – a de Heidegger e a de Deleuze – sigam por caminhos diferentes, o vigor e a força incomparáveis do pensamento de Nietzsche se mantêm vivos e intactos em suas perspectivas sobre este autor.
Alguns conceitos de Heidegger nesta obra tornaram-se clássicos e um dos pontos que ainda suscita discussões acaloradas é o de que Nietzsche seja “o último metafísico”. Para Heidegger Nietzsche teria levado a metafísica até a última possibilidade, mas ele ainda encontrava-se amarrado aos nós que pretendia superar. Não encontraremos na leitura heideggeriana o Nietzsche das verdades sangrentas (die blütige Wahrheiten), da história e da memória criadas através de atos violentos de sangue. E se pensarmos que a metafísica pressupõe uma ordenação a princípios superiores (ou a uma só ordem superior) seja(m) de natureza política ou religiosa, também não encontraremos em Heidegger, o Nietzsche insubmisso e libertário nem o filósofo que rebate a objetividade do conhecimento científico e as regras da moral e que faz uma ode à vida e à criação.  Na concepção de Benedito Nunes (O Nietzsche de Heidegger, Ed. Pazulin, 2000) o que Nietzsche faz é uma anti-filosofia, pois não há um só dentre os conceitos metafísicos tradicionais que não tenham sido solapados por este duplo movimento: “o retrocesso ao desenfreado transbordamento vital, (...) vontade de potência, efetuação da genealogia impura da ciência, da filosofia e da moral”. É também verdade que para Heidegger a metafísica não era mais somente a disciplina régia, mas um modo de pensamento organizado e que atuava de forma dominante historicamente. 
A afinidade a que Heidegger se refere em relação a Nietzsche talvez possa ser interpretada da seguinte forma: Nietzsche abriu uma passagem
para uma nova esfera de pensamento, abriu um novo caminho – caminho que o próprio Heidegger tomou para seguir adiante com suas próprias inquietações. E, vemos com isso, que o processo de interpretação na filosofia pode ser a do intérprete que guarda distância do autor ou ainda – assim como fez Heidegger – daquele intérprete que integra o autor ao próprio pensamento. E esta é uma premissa do próprio Heidegger ao esclarecer as discussões que permearam a construção do seu caminho filosófico. Heidegger não carrega em si a ingenuidade de tentar tratar de aforismos complexos e conceitos inacabados propondo soluções ou conclusões. Nietzsche é um dos autores com quem Heidegger dialoga ao longo de sua pesquisa, mas a singularidade de sua obra aparece a partir da questão do ser
e do ser-no-mundo
e é o assunto sobre o qual ele dedicaria toda a sua vida.
 
Publicado em: janeiro 29, 2008
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