RESUMO O presente estudo propõe relacionar o entendimento que a pensadora Hannah Arendt oferece a respeito da narrativa de
acontecimentos históricos com a narrativa de histórias pessoais, mais especificamente, as que ocorrem na psicologia clínica, propiciando a compreensão que o homem pode ter de si mesmo, como co-autor da sua vida. O que se tomou como ponto de partida para essas reflexões diz respeito ao modo de viver do homem moderno, que, desenraizado e herdeiro de um mundo rompido com a tradição, pode encontrar no
adoecimento uma alternativa para dar conta do existir. A crescente ausência de espaços públicos para a busca do bem comum, tem restringido o sofrimento das pessoas ao âmbito privado, fazendo com que o adoecimento seja entendido apenas como uma deficiência biológica ou afetiva, portanto individual. Esse esforço em buscar na filosofia fundamentos para a reflexão do trabalho clínico se justifica pelo interesse em compreender a existência humana, a fim de ampliar a visão específica da psicologia quanto aos sofrimentos denominados “psíquicos”. A filosofia de Arendt oferece recursos para essa reflexão, mais especificamente quanto aos seus conceitos de narrativa e compreensão, que podem ser transpostos para o âmbito da
psicoterapia. Compreender-se narrando a própria história, tem por base a faculdade do pensamento que permite ao ator de uma biografia tornar-se um espectador de si mesmo e narrar-se aos demais. No entanto, essa atividade não se dá de modo solitário. Para que a compreensão de si mesmo se dê, é necessário que a narrativa de histórias pessoais seja dialógica, que tenha a presença de uma testemunha, e que surja de um encontro ensejador de verdades, jamais absolutas, mas reveladoras do herói de sua história.