Trajetórias dos estudos de gênero
Partindo-se da narrativa de L. Febvre que afirma que o “conhecimento
histórico deve ter como referência os homens, é inadequado falar-se em história da mulher”. Cabe, portando, abordar-se a trajetória das
mulheres em sua diversidade de condições sociais, étnicas, de raça e crença religiosa, sendo assim, marcada por inúmeras diferenças.
Nas décadas de 1960-70-80, a grande reviravolta da história inclui temáticas e grupos sociais “excluídos”, onde se desenvolve os estudos sobre mulheres. A preocupação com as identidades coletivas de grupos sociais (operários, camponeses, escravos, pessoas comuns) promove a pluralização dos objetos da investigação histórica e eleva as mulheres a condição de sujeito e objeto da história.
Antes da década de 1960 do século XX, os enfoques sobre as mulheres estavam presentes em Michelet que, coerente com o pensamento da época que identifica esse sexo com a esfera privada, vê nas relações entre os sexos um dos motores da história na medida em que as mulheres quando aspiram a uma atuação no âmbito público estarão usurpando o papel masculino, agindo como força do mal e fonte de infelicidade, provocando o desequilíbrio da história.
Observa-se um recuo nessa temática em fins do século XIX. A história positivista marca o exclusivo interesse pela história política e pelo domínio público como racionalidade universal. As mulheres pouco aparecem nas fontes privilegiadas da história política – sejam administrativas, diplomáticas ou militares.
A história dos Annales busca desvencilhar a historiografia de idealidades abstratas, voltando-se para a historia dos seres concretos e a trama de seu cotidiano. As mulheres não são logo incorporadas, mas os Annales contribuem para que isto ocorra num momento posterior.
Já para o Marxismo, a problemática homem/mulher é uma contradição secundaria que encontrará resolução com o fim da contradição principal: a sociedade de classes, o modo de produção capitalista. Logo, não se justifica a atenção especial para a questão feminina. Postura diversa é assumida pelos que incorporam grupos ultrapassados pela historia, as massas populares não-organizadas, as mulheres do povo.
O revisionismo marxista na década de 1960, através de suas correntes engajadas no movimento da historia social, promove a abertura de novos campos no âmbito da historia das mentalidades e historia cultural, que reforçam o avanço da abordagem do feminino. Estudos sobre mulheres assumem importância crescente, apóiam-se em outras disciplinas (Literatura, Lingüística, Psicanálise e Antropologia) com o intuito de desvendar as diversas dimensões desse objeto.
O movimento feminista dos anos 60 nos EUA constitui-se como uma grande contribuição para o surgimento da historia das mulheres. As reivindicações dessas mulheres provocam forte demanda por informações sobre questões que estavam sendo discutidas pelos docentes que se mobilizaram e instauraram cursos nas universidades. O resultado dessas pressões, na década de 1970, foi a consolidação dos estudos, cursos e colóquios, dos grupos de reflexão e boletins (Penélope, Cahiers pour l’Histoire des Femmes) que tomaram lugar nas universidades francesas, impondo os estudos sobre mulheres como novo objeto. Multiplicam-se as pesquisas e o campo é relativamente reconhecido em nível institucional. Na Inglaterra, destacam-se as historiadoras das mulheres (history workshop); nos EUA, os women studies, a revista Signs e Feminist Studies.
Em outras partes da Europa e do mundo, no entanto, o reconhecimento desses trabalhos ainda é frágil, talvez porque o objeto “relação entre sexos” ainda não seja visto como uma questão fundamental da história.