Inicialmente ponderei muito se deveria abordar um assunto que, de certa forma, não interessa a muitos membros da sociedade de hoje. Constroem-se prédios, casas, para cumprirem determinadas funções. Posteriormente, por algum motivo de interesse geral ou particular deitam-nos abaixo muito mais rapidamente do que o tempo de construção. São os avanços tecnológicos, a sua funcionalidade e muito mais que determinam o que deve persistir ou não. Mas, esta casa teve uma tal importância, que não posso deixar de
contar a sua História. Era o casarão onde viveram os meus avós e já estava na família há séculos. Irradiava vida qualquer parte dela, uma vida de alegria, até nos sítios mais recônditos. Fascinava-me pelo seu tamanho, pela sua
fachada imponente que acedia a um largo muito grande, com árvores frondosas, com bancos de pedra espalhados embora houvesse uma ordem na sua disposição. As tílias seculares ensombravam os bancos e exalavam, no Verão, um odor extasiante que nos atraía para junto delas. Sabia que, aquela casa no seu conjunto tinha muitas histórias para contar e, como tal, vasculhava tudo, à procura desses vestígios. A porta principal era enorme, feita de
madeira maciça, com desenhos talhados que me faziam lembrar outros parecidos mas apenas em monumentos. Eu falava com ela, contudo estava ali mas não me respondia. Quando se
entrava, havia um espaço todo em pedra a partir do qual se subia para o andar de cima por uma escadaria muito larga, também em pedra, de onde sobressaía numa das partes laterais um corrimão todo ele trabalhado geometricamente. Pequena como era, sentia-me uma princesinha a subir aquelas escadas e imaginava histórias fantásticas de príncipes encantados que esperavam por mim no último degrau. Fazia uma vénia,
dava-lhe o braço e percorria-mos um átrio que dava para vários sítios mas, um deles era um corredor enorme com muitas
portas. Era austero, sem dúvida, mas os quadros expostos nas paredes davam-lhe vida. Uma das portas, embora igual às outras, quando se abria, surgia um enorme salão que praticamente abarcava a fachada principal da casa. A luz entrava pelas janelas altas e iluminava – o completamente. Estava muito bem decorado, cada móvel no seu lugar próprio, os canapés dispersos pela sala discretamente. As carpetes enormes estavam dispostas com rigor; parecia que não eram pisadas. O soalho de uma madeira nobre que não sabia o nome, mostrava a sua antiguidade realçando nos espaços não cobertos. Era de uma beleza inexplicável, e quantos acontecimentos ali teriam decorrido! Olhavam-me com uma certa austeridade, como que não quisessem que uma menina traquina invadisse aquele espaço. Mas continua a sonhar com os príncipes e princesas a pavonearem-se de um lado para o outro, a conversarem e quem sabe também deveriam dar o seu pé dança.
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