Samuel Beckett em 1953 genialmente escreveria “Waiting for Godot”, que traduzido para o português seria, “Esperando Godot”.
Ao mesmo tempo em que se fala o nome Beckett, o nome Godot surge como expoente e que por sua vez, instantaneamente, desperta diversas questões sobre a espera. O que esperam seus personagens? O que cada um de nós espera?
Infelizmente tudo o que se pode dizer a respeito disso, são especulações acerca da proposta de Samuel Beckett.
Podemos discorrer, entretanto, a respeito do que é concreto em sua obra. Enquanto propõe uma espera interminável por algo que não sabemos exatamente o que é, o autor avança sobre nossas cabeças desconstruindo a noção dramática até então conhecida da obra teatral.
Anteriormente a isso, a obra dramática era restrita ao desencadear lógico de uma seqüência de ações que por subseqüência desencadeia diálogos, e que, outra vez resulta em outras ações. Porém a pergunta de Beckett sobre esses padrões é: E se nada acontecer? Se ninguém disser nada? E se ninguém fizer nada? Resta esperar Godot.
Rompendo com a significância lógica do texto e excluindo o mesmo como engrenagem principal para o desenvolvimento das ações, o autor desestrutura, segundo os princípios do drama, a obra como ato dramático. Colaborando com isso a ação inerte de esperar por algo, torna aparentemente inútil o ato teatral. Mas, entretanto, a maestria com que Beckett conduz a “narrativa” utilizando-se do cômico como elemento tanto atrativo quanto de distanciamento, nos leva a perceber as nuances e a criar diversos outros questionamentos pessoais talvez muito superiores aos próprios questionamentos teatrais.
Através desses elementos o autor abre mão de toda psicologia embutida nas personagens, fazendo com que as mesmas se esmaeçam por entre o tema. Isso quebra com a ilusão gerada pelo drama fazendo com que o público aceite aquela representação não como forma de realidade, mas como proposta teatral.
Através desses artifícios inovadores, Beckett lança uma analise espessa sobre a condição humana. Abordando o “nada” como tema e colocando suas personagens na condição de meros agentes passivos, ele consegue lançar ao público questionamentos de uma forma extremamente eficaz. Ao fim do espetáculo, o que fica aos espectadores não é a trama propriamente, mas o caminho sem fim a que o tema leva.
A incomunicabilidade e a angustia comum às suas obras, também presente em “Esperando Godot”, anuncia a própria relação do homem com sigo mesmo. Todos nós, sem exceção, esperamos por algum “Godot”. Talvez por esse fato, Beckett tenha um apego tão próximo a nós. Várias significâncias podem ser discorridas a respeito dessa espera.
Alguns acreditam que “Godot” é a figura que representa a morte. Sendo aquela que todos nós definitivamente e inexoravelmente esperamos e não conhecemos. Outros encaram a espera por “Godot” como sendo a busca dos homens por Deus. A justificativa para esse ponto de vista vem da especulação de um possível jogo de Beckett com a palavra Godot e a palavra God, vinda do inglês significando Deus.
Acreditamos entretanto que a genialidade e a maestria de Samuel Beckett, vem justamente em abrir o tema para as diversas possíveis interpretações de seus espectadores. Essa abertura no tema em consonância às já ditas incomunicabilidades e angustias e o rompimento com as normas dramáticas, faz com que o “nada a dizer” de Beckett diga tudo e um pouco além do que é necessário dizer.
Concluindo, “Esperando Godot” realmente não pode ser classificado como uma obra dramática. Sua trama não desempenha fator algum, seus personagens não apresentam nenhum caráter claro, e o desenrolar dramatúrgico não acompanha sua seqüência de ações. Porém sua significância se apresenta no contexto total como obra artística, deixando a comunicação para o subjetivo e lançando para o espectador, além da reflexão, a tarefa de desempenhar por sua própria vontade e decisão a ação realista ou real dramática.
Mais críticas sobre Esperando NOVOS GODOTS