Francês: aparté. Inglês: aside. Alemão: beiseitesprechen. Espanhol: aparte. Discurso da
personagem que
não
é dirigido a um interlocutor, mas a si mesma (e, consequentemente, ao público). Distingue-se do monólogo pela sua
brevidade e integração no resto do diálogo. O aparte parece escapar à
personagem e ser
ouvido por acaso pelo público, enquanto o monólogo é um discurso mais organizado, destinado a ser apreendido e demarcado pela situação dialógica. Não se deve confundir a frase dirigida pela personagem a si mesma e a frase dita intencionalmente ao público.
1 – O aparte é uma
forma de monólogo, mas torna-se, em
teatro, um diálogo directo com o público. A sua qualidade essencial é
introduzir uma modalidade diferente do diálogo: o diálogo baseia-se na troca constante de pontos de vista e no choque de contextos; desenvolve o jogo de intersubjectividade e aumenta a possibilidade da mentira das personagens entre si. Ao contrário, o
aparte reduz o contexto semântico àquele de uma única personagem; assinala a verdadeira intenção, opinião ou carácter, de modo que o espectador sabe em que informação confiar e pode julgar a situação com conhecimento de causa. No aparte,
a personagem nunca mente, já que não nos enganamos voluntariamente a nós próprios. Estes momentos de verdade interior são também tempos mortos no desenvolvimento dramático, durante os quais o espectador formula o seu julgamento.
2 – A tipologia do aparte sobrepõe-se à do monólogo: auto-reflexão, conivência com o público, tomada de consciência, decisão, dirigir-se ao público, monólogo interior, etc.
3 – O aparte é acompanhado por um
jogo cénico capaz de o tornar verosímil (afastamento do actor, mudança de entoação, olhar fixo na sala). Algumas técnicas permitem-no “passar a ribalta” e ficar ainda mais verosímil, ainda que dando-se a reconhecer como procedimento: holofote no personagem, voz off, iluminação atmosférica diferente, etc. O aparte contém em si
poder lúdico e
eficácia dramatúrgica.