TRADIÇÃO E TRADUÇÃO
Cristina Pompa em seu denso e erudito livro: “Religião como tradução”
lança um foco de luz sobre a historiografia dos séculos XVI e XVII. Abordando as relações entre indígenas e
diferentes agentes da colonização brasileira, o livro sugere que se acabou
construindo uma “linguagem simbólica negociada”.
A autora faz correlações entre o real e o imaginário, as imagens e
narrativas dos viajantes do século XVI e seu “horizonte teológico”. Avalia
ainda o fenômeno da projeção dos valores lusitanos sobre os nativos da terra da
Vera Cruz.
Mostrando as nuances em que cada cronista apreende e transcreve o
“outro” para o papel a autora
fala em diferença de olhares e polifonia.
Citando textualmente a pregação do padre Azpilcueta Navarro em estilo selvagem
batendo o pé, espalmando as mãos...> e, da “Relação”
do Jesuíta Fernão Guerreiro, a pregação de um pajé em estilo católico: “ele estava como quem ensina a
doutrina/ estava posto de joelhos, com os olhos no céu e as mãos levantadas e
abertas como sacerdote que diz missa>, ela torna evidente a mão-dupla das apropriações
culturais-religiosas.
Questionando a autenticidade histórica das migrações tupi-guaranis rumo
à terra sem males e seu profetismo a autora, numa extensa exegese
bibliográfica fala num “objeto antropológico”, ou seja, que o
mito teria sido tecido pela interpretação errônea dos textos antigos pelos
antropólogos.
Nomes acima de qualquer suspeita como Serafim Leite que teria traduzido
de forma ambígua o termo em latin para “chibatadas” e até Florestan Fernandes
foram revisitados pela autora.
A segunda parte do livro
simplesmente eu resumiria como :”Tudo o que você sempre quis saber sobre
os tapuias
e estava perdido, não traduzido ou simplesmente engavetado”.
A sensação é de estarmos redescobrindo o Brasil cuja história foi
destorcida.
Ave Cristina! Agraciada. Prêmio Melhor
tese de doutorado do concurso CNPq-ANPOCS.
Tupi.
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