História de Trancoso. A peça Deus Danado (de João Denys) é simplesmente uma metáfora de dois gumes.
Onde temos em frente ao espelho a corcunda, que é nossa infância e os pés que representa nossa velhice. A corcunda é representada na por Luiz ( Rafael Amâncio) que traz a pureza do olhar para as formas do mundo, a sede, a fome e o sol
“e o que é aquele lampião acesso lá em cima padrinho? Pergunta ele apontando para o sol ” já as pernas, cansadas, espinhosas e solitárias por causa de uma vida amarga, vem sendo carregada por Teodoro ( Severino Florêncio) velho carrancudo e ignorante
“já disse qual era o nome desse lampião, sujeito, é o sol. E debaixo dele tudo é traição” responde Teodoro.
O cenário desses dois esqueletos é o sertão seco, onde nem lágrima brota, hoje, um pouco esverdeado por causa da mudança do clima e tempo a adiante, cenário esse que abriga a chegada da morte repentina e da partida para além da esperança de uma terra melhor. O sertão é apresentado na peça como uma condenação de Deus, como se ele deixasse o homem a as moscas e voltasse seus olhos para o infinito.
A escuridão também serve de fundo, Luiz, sempre temeu a escuridão, quando criança “Luiz apague as lamparinas, pois a escuridão já vem vindo” alerta Teodoro
“o senhor deixa eu acender uma lamparina padrinho? É que eu tenho medo da escuridão”. Luiz acreditava que a escuridão poderia comê-lo vivo. O escuro que cresce por dentro das paisagens secas, escuro sem nome nem forma. Escuro esse que come vivo qualquer sonho de criança.
O tempo vai passando e Luiz vai tomando jeito nas pernas. Já não é mais um menino bobo, enfrenta a escuridão de facão. Enquanto Teodoro continua a sua sina, atrás de uma botija sagrada.
A botija sagrada é uma história que o pai de Teodoro contou sobre um tesouro que vem sido procurado por anos e anos no sertão. E quem achar esse tesouro irá trazer novamente à fartura para o sertão.
O amor entre o silêncio e o olhar duro com cercas, a utopia de uma botija sagrada, o sustentar das pernas, o escuro que come gente, o sol em lamparina, a aprendizado através das tapas e surras da vida, o gemido que a carne faz quando ficamos moço, chegada e a partida de quem nem chegou lá. O pai que vira filho quando se está velho e o filho velho que vira pai do pai. Tudo isso são elementos chaves para acompanhar com os olhos a relação entre Deus e o Homem.
A peça Deus Danado simplesmente é: uma construção de sentimentos ao seco escuro do sertão ainda inalterado.