Quando o artista plástico Zé Andrade resolveu tomar para si a iniciativa de homenagear grandes figuras da humanidade, particularmente
do Brasil, o fez – mesmo sem assim o desejar – sob o signo dos gnomos, ou seja, fazendo-os representados através de pequenas esculturas de terracota, unindo dessa maneira a religiosidade milenar do barro aos anseios mais contemporâneos. Não é à toa, posto que os gnomos – conta a história – eram assim batizados em virtude de serem possuidores de rara inteligência, sempre aliada à razão e à proposição de verdades morais definitivas (gnomas), que são as raízes de todos os provérbios, os adágios sentenciosos, os ditados que se transformam na filosofia do povinho.
O que Zé Andrade faz, ao juntar à sua coleção de pequenos gênios
personas representativas de todas as artes, é
dar asas ao espírito para que se manifeste, se faça, através da reunião num mesmo conjunto de vozes. São
personas de presença definitiva em nossa vida, desde Villa Lobos – que transfigurou o som de nossa floresta em sinfonia clássica – a este Noel Rosa, cotidiano, dos botequins da vida, fumante, bebedor de cerveja e poeta da música urbana. Desde Antônio Carlos Jobim, dono de uma harmonia clássica, capaz de nivelar a música
popular à música chamada erudita, até o Cartola, cujas letras plantadas na favela povoam o mesmo jardim das mansões – autores e obras, em suma, díspares na forma, mas unas no conteúdo humano.
Zé Andrade mostra que não é impossível se juntar ao caráter universal deste trabalho tão brasileiro que Burle Marx nos legou, as idéias de Einstein, cujo pensamento materialista sobre a relatividade das coisas aproximou a alma humana da eternidade possível, que tanto os pobres mortais almejam. Sem se fazer de rogado, aliás, de modo bem simples, Zé Andrade dá a chance de juntar a expressividade de Machado de Assis, iniciador da fase familiar realista do romance, incorporando a despensa, hábitos caseiros, como também as mazelas espirituais domésticas – ao personagem picaresco de Mário de Andrade, Macunaíma, exorcista das lendas indígenas, o caráter que
milhormente expressa a expressão brasileira. Depois do que, agrega toda essa feijoada à grandiosidade sertaneja com que Guimarães Rosa emoldurou suas narrativas, trazendo-nos uma visão cinemascópica do nosso interior mais remoto.
Na criação de Zé Andrade, a poesia se faz presente de forma contumaz, pois não tem apenas Fernando Pessoa, que não é apenas uma, mas várias pessoas, cuja heteronímia o aproxima intimamente dos gnomos. Tem também Manuel Bandeira, cuja longevidade era-lhe insuspeitada mercê da tuberculose com a qual sempre conviveu desde a mocidade, fazendo-o passar cada dia como se fosse o último e assim expressar esse estado espiritual em todas as suas poesias, para não falar de Ferreira Gullar – vivo e entre nós – autor do
Poema Sujo, sem dúvida alguma o texto mais representativo do
éthnos brasílico dos tempos atuais. São
estrelas da vida inteira e merecem sem dúvida freqüentar o mesmo altar...
Zé Andrade nos faz transitar pelas mesmas trilhas tortuosas da imaginação que povoam as plantações de girassol de Van Gogh, enquanto que o seu Picasso parece imaginar o que foi aquela Guernica dolorosa, sem cores, negra e branca, cujo sangue impensado borraria todas as telas do mundo. Traz-nos também as figuras de personagens que superaram seus criadores, sobrevivendo como seres eternizados, Carlitos, Dom Quixote e o nosso Barão de Itararé, que ainda irão alegrar a existência humana por séculos vindouros, enchendo-a da paz necessária para suportar toda a tragédia da bomba.
Deste mesmo modo as mãos do artista de Zé Andrade nos dão através do barro e da essência sempiterna, o calor das novas vidas de Groucho Marx, de Alfred Hitchcock e de Woody Allen, magos que levaram às telas dos cinemas gravações de passagens de nossas vidas passadas, presentes, futuras, componentes de nossos medos e temores, mas semeadores de sonhos. São membros de uma mesma equipe, gloriosos plantadores de esperanças, iguais a Sigmund Freud, a Mahatma Ghandi e ao nosso Sobral Pinto, sonhadores de um mundo melhor, filósofos da incompreensão, por isso mesmo, simplesmente necessário.