Durante o Séc XVIII, chega a Portugal, pela mão de seu marido, o nosso rei D João V, D. Ana Maria, da Casa Real de Viena
de Áustria.
Traz com ela, a arte e os conhecimentos da Escola de Viena, cuja fama se prolongou até aos dias de hoje.
Ao contrário do que, ocorreu por essa época em Espanha, onde reinavam os Bourbons, de origem e gosto franceses que, quase levaram à extinção do toureio em Espanha, no nosso país e por influência de D Ana, dá-se seguimento à tradição da tourada a cavalo.
Este facto, vai tornar-se decisivo para a manutenção da verdadeira raça, do cavalo de puro sangue lusitano, dando-se um distanciamento em relação ao cavalo andaluz, pura raza española.
É criada a Coudelaria Real de Alter em 1748 e dado um passo importante para o apuramento da raça.
Esta Coudelaria é considerada a mais antiga do mundo a funcionar no mesmo local, sem interrupções até aos nossos dias.
Vai ser esta Coudelaria, a verdadeira mãe do cavalo, puro sangue lusitano.
A sua criação em terras de Alter do chão é, segundo Ruy de Andrade, devido às boas condições agrológicas da região.
As actuais cavalariças foram em tempos, um celeiro e em seu redor encontram-se prédios com serviços (unidade de obstetrícia, centro de desbaste e testagem e laboratório de genética molecular), para garantir uma vida saudável às éguas lusitanas.
É aqui também que, se encontra a Sede do Serviço Nacional Coudélico.
Em manhãs de Primavera, vemos as manadas de éguas e seus potros, a caminho dos pastos, por entre oliveiras e sobreiros, centenários.
Presentemente, existem 60 éguas, de pura linhagem, fruto do trabalho empenhado de muita gente. As melhores éguas, são sujeitas a testes de laboratório, testes físicos e de trabalho e cobertas pelos melhores machos, ou por inseminação manual.
As éguas, têm partos de quatro em quatro anos, até ao máximo de vinte partos, cada uma e são chamadas as “éguas de ventre”.
Em 1887, é criada em Santarém, outra Coudelaria, mas esta como depósito de garanhões.
A criação do cavalo de pura raça lusitana, não se confina a estas duas Coudelarias, sendo que cavaleiros e ganadeiros, o têm feito com sucesso.
Esta raça que várias vezes viu em causa a sua sobrevivência, devido a conflitos políticos, a falta de investimento e mesmo à alteração do seu património genético, já esteve á beira da extinção.
Mas para se chegar a este puro cavalo lusitano, é preciso recuar no tempo.
No Alentejo, nas grutas do Escoural, desenhos com mais de 13.000 anos, mostram cavalos e cavaleiros.
Dessa época, vem-nos o cavalo peninsular, o mais antigo cavalo de sela do mundo.
Muito procurado pelos povos da bacia mediterrânica, esteve presente nas guerras de Esparta e viajou até à Fenícia.
O cavalo peninsular, é fruto do cruzamento de animais trazidos pelos Iberos, do norte de África, pelos Celtas do Oriente e pelos povos que passaram pela Península Ibérica, como foi o caso, dos Cartagineses, Romanos e Bárbaros.
É um cavalo que não é veloz, mas em contrapartida, é ágil nas manobras e rápido a revolver-se e a estacar, isto é, a parar, o que, em tempos da guerra feita a pé ou a cavalo era uma mais valia.
Ter um cavalo, ligeiro, capaz de acelerações e viragens repentinas era assumidamente uma vantagem.
Como curiosidade, João Costa Ferreira, Director do Serviço Nacional Coudélico, no seu estudo sobre o “Uso do Cavalo”, refere diferenças entre o cavalo ibérico e o cavalo do norte da Europa.
Ali, os cavalos, são grandes e fortes, com os estribos baixos e o homem, cavalga de perna esticada.
Na Península Ibérica, monta-se à gineta, com estribos curtos que permitem a esgrima e o arremesso de lança e daí os cavalos pequenos e manejáveis, como o peninsular, serem os ideais.
No início da fundação da nossa identidade como povo, consta que Viriato, lutou a cavalo, contra os romanos.
Muito importante, foram as primeiras leis, sobre a criação de cavalos, do tempo de D .Fernando e o 1º Manual Equestre para Cavaleiros, um livro de Ensinança de Bem
Cavalgar Toda a Sela, do nosso rei D. Duarte.
É ainda de referir que, D. José, filho de D. Ana de Áustria, fundou a Picaria Real em Lisboa, que foi destruída completamente pelo terramoto de 1755, sendo posteriormente, instalada em Belém, no local do actual Museu dos Coches e onde se dá início ao ensino da arte equestre em Portugal.
Dois momentos importantes, para a criação do puro “cavalo de raça lusitana”, são o Registo das éguas reprodutoras em 1911 e a entrega a particulares, do Livro Genealógico Português de Equinos, em 1967, até ali, nas mãos do Estado.
São as artes do toureio em Portugal e os seus aficionados que permitem ao cavalo lusitano, apresentar-se hoje, tal como é: nobre, generoso, ardente, dócil e sofredor.
Cada vez mais, estas artes, são tema de reflexão, pelo sofrimento desnecessário que causam aos animais, em especial ao touro.
Contudo, cavalo e touro, há muito tempo que caminham a par e passo, dizendo-se mesmo que, foi o touro que salvou o cavalo.
Enquanto houver aficionados e as leis o permitirem, poderemos ver em Portugal ou no estrangeiro e nos mais diversos acontecimentos, esses magníficos exemplares de cavalos, de pura raça lusitana, legado dos nosso antepassados e que pela sua nobreza de carácter, a todos deve encher de orgulho.