Meu
Mundo
Sérgio Ferraz
Mundo devasso, mundo mentiroso, mundo cruel. Mundo em que se apega à carne e se apaga o espírito. Mundo do invólucro, das aparências. O que importa é o exterior e não o interior. Atende-se à lingua e não entende-se o cérebro. Todos querem ser pela razão, se esquecendo da razão de ser.
O passado já machucou o que tinha de machucar; o presente machuca todo dia, toda hora, todo minuto; e o futuro apenas me assusta, deprime, desespera.
Amanhã as pessoas terão consciência? Terão honra, dignidade? Terão amor verdadeiro? Serão solidários?
Oh, tu que vieste de tão longe, me responde...
Quando as pessoas deixarão a falsidade, a frivolidade, a desonestidade? Quando deixarão de optar pela carne, em detrimento da alma? Quando as pessoas serão verdadeiras, com elas mesmas e com as outras?
Só este vazio angustiante. Só esta ferida aberta...
Só,
sem alegria, sem canto, me recolho ao meu canto. Eu o escolhi, em busca de proteção. Nele eu me encolho, entro dentro de mim e fujo deste mundo. Nele, absorto, eu absorvo os gritos da minha alma triste. A razão de viver sai de mim, e o meu ser se esvai, sem vontade, sem resistência. Só a abstinência da dor.
No meu canto, no mundo onde meu corpo e minha alma encolhidos se escondem, eu não sinto nada além da angústia, da tristeza e da inércia. Alí eu sou eu e não sou. Alí sou corpo, sou alma, sou a essência do medo, a causa da incompreensão, o encontro da culpa e do perdão.
Alí, no meu mundo inexistente, eu também inexisto na busca do nada ser, do ser sem nada. Sem medo, sem dor, sem corpo. Só o silêncio, mais alto do que o pensamento, me faz aquietar. Eu me confundo e depois me fundo em meu mundo sem diâmetro. Apenas vazio, sem fundo...
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