Carnaval - de Baco ao rei Momo
Sergio Ferraz
Surgido há milhares de anos como uma cerimônia pagã para festejar as colheitas, o carnaval, que começou como culto aos deuses das religiões politeístas, acabou sendo incorporado em outros tempos e culturas, em tradições de todas as sociedades, qualquer que fosse seu grau de desenvolvimento. Baco, o deus do vinho, era um dos mais festejados, e a festa acabou virando bacanal, para mais tarde se tornar uma festa socialite, atravessando um período que podemos chamar de romântico, para voltar à bacanal novamente após a década de 70, principalmente no Brasil. Revistas e fitas com fotos pornográficas ainda são top de vendas logo após os festejos carnavalescos, trazendo fotos dígnas dos aplausos de uma Cicciolina.
Tais festas pagãs foram toleradas pela Igreja Católica na Idade Média, depois de uma série de restrições. Em meados do século XIII, os elegantes bailes de máscaras se tornariam uma tradição, hoje substituidos por desfiles de fantasias exóticas e estapafúrdias e pela liberação de pudores e libidos nos salões de grandes clubes.
No Renascimento houve uma popularização ainda maior dos bailes de máscaras e já no século XIX, o carnaval se popularizaria de tal forma na Europa, que até mesmo Londres, na época a mais puritana das cidades, acabou cedendo ao apelo erótico de Baco. Mas no início do século passado, os carnavais foram desaparecendo na Europa, só sendo comemorado em Nice, onde a população parecia enlouquecer por alguns dias do ano.
Antes, o carnaval ia de 25 de dezembro a 06 de janeiro, mas a Igreja Católica, quando o regulamentou, marcou a data dos festejos para sete domingos antes da Páscoa. No Brasil , o carnaval foi trazido pelos portugueses e era festejado em qualquer ocasião, até para recepcionar a chegada de uma personagem ilustre. Os hábitos carnavalescos portugueses, barulhentos e violentos, eram chamados de entrudo. Por sua violência, o entrudo acabou sendo proibido na colônia, mas sua essência permanece até hoje nos carnavais, que é justamente a data, segundo levantamento das polícias civil e militar, onde acontecem mais furtos, roubos, latrocínios e acidentes automobilísticos, pois de sexta a terça-feira, nos cinco dias de folia, boa parte da população, principalmente as das grandes cidades, parece insandecer.
Em 1604 o entrudo voltava a ser proibido, até desaparecer, dando lugar a um tipo de folia mais amena, onde pedaços de madeira usados para dar bordoadas e consequentes danos físicos, foram substituidos por flores e limões-de-cheiro. Em 1906 os chamados limões-de-cheiro seriam substituidos pelos afamados e defamados lança-perfumes, que eram comercializados em vidros, só recebendo invólucros de metal a partir de 1927.
O entrudo veio de Portugal e os confetes e serpentinas são originários da Espanha, e, da Africa, veio o semba, ou umbigada, que acabou virando samba e se transformou no elemento básico de todos os carnavais a partir de então. A fantasia, na sua característica de crítica social, à qual também se incorporariam muitos sambas enredos, surgiria no Brasil durante a Campanha Abolicionista, quando dois cariocas sairam à rua, um trajando roupas de senhor de engenho e outro, em farrapos, representando os escravos. Pierrôs, colombinas, príncipes, chinês, turco, pirata e os diabinhos, foram trazidos também pelos portugueses.
Em 1907, quando um automóvel transportando as filhas do então presidente Afonso Pena, entrou na Avenida Central do Rio de Janeiro, estava criando, sem que o soubesse, o famoso Corso. Com a I Guerra Mundial e a subsequente crise financeira, o carnaval perdeu o luxo, mas não perdeu o brilho. A suntuosidade dava lugar à criatividade e à originalidade.
Os negros, que dançavam para divertir os nobres, que assistiam às danças passivamente, estavam também incorporando ao carnaval brasileiro, além de seus rítmos, ritos e danças, o cordão carnavalesco, que eram foliões dando-se as mãos em rodas de samba pela avenida. Nessa época eram incorporados também os tambores, cuicas, tamborins e reco-recos. O primeiro cordão devidamente licenciado para brincar o carnaval, foi o Flor de São Lourenço, de 1885, seguidos depois por outros, como Estrela da Aurora, Teimosos da Chama, Flor da Harmonia, Rosa de Diamantes e ainda outros. As pastoras, produtos das antigas comemorações carnavalescas, lembram os cortejos de coroação dos reis africanos.
Em 1908 surgiria o primeiro rancho carnavalesco: o Macaco é Outro. Por volta de 1912 os ranchos já haviam substituido os cordões, e seriam os precursores das futuras escolas de samba. Eles já seguiam um enredo, teatralizando através dos desfiles de carnaval uma história, como o Caprichosos da Estopa, que naquela época ousou apresentar como enredo de seu desfile, uma adaptação da peça Salomé, de Oscar Wilde.
A compositora Chiquinha Gonzaga, a pedido do cordão Rosas de Ouro, fez a primeira marcha carnavalesca da história do reinado de Momo, a famosa Abre Alas, e em 1917, Donga comporia e gravaria o primeiro samba de que se tem notícia, impondo de vez o rítmo no País. O samba se chama Pelo Telefone. Em 1919 acontecia no Teatro Lírico do Rio de Janeiro o primeiro concurso de músicas carnavalescas, destacando-se nomes como Sinhô, Pixinguinha, Noel Rosa, Ismael Silva, João de Barro, Ari Barroso, Haroldo Lobo, Herivelto Martins e Lamartino Babo.
Pesquisas e artigo do próprio autor, publicado no Jornal da Barra
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