• Registrar-se
  • ‎O que é o Shvoong?‎
  • Entrar
    Entrar
    Lembrar meu nome de usuário Esqueceu sua senha?

Resumos e revisões curtas

.

Shvoong Home>Artes & Humanidades>In Private, John Nicholson

.

In Private, John Nicholson

por : Elisangela Valadares    

Autor : Fernando Cocchiarale
In Private, John NicholsonHá dois anos John Nicholson voltou à figuração. O retorno em si poderia ser tomado
como uma ocorrência corriqueira na produção de um artista cuja obra desenvolveu-se integralmente no campo da pintura. No entanto essa volta é, no caso de Nicholson, uma volta às raízes de seu trabalho, ainda que de modo renovado. Nascido e formado no Texas, John mudou-se em 1977, aos 26 anos de idade, para o Rio de Janeiro.Trazia de sua formação na Universidade de Houston e na Universidade do Texas, o germe de um figurativismo expressivo que viria ser um dos traços mais característicos da retomada mundial da pintura na década seguinte. Três anos mais tarde, já como professor da Escola de artes visuais do Parque Lage, principal centro irradiador da guinada em prol dos meios artesanais da arte no Brasil, John tornou-se então, pela atualidade de sua obra, um dos artistas que influenciaram a emergência da Geração 80, sintonizada com o que se passava na Europa, Estados Unidos e em alguns países Latino-Americanos. A volta à pintura significou mais que o resgate da tela e do quadro, suportes nobres da produção visual desde a Renascença. Implicou também numa escolha decisiva: entre a valorização do fazer pictórico, do gesto matérico, expressivo e a construção formal do plano, típica das pinturas produzidas pela racionalidade do abstracionismo geométrico e do construtivismo, os jovens pintores ficaram com a primeira alternativa. Essa eleição que reduziu a pintura ao pictórico em detrimento do linear (empregados aqui no sentido dado por Wölfflin, a pintura em manchas, característica do olhar barroco, oposta àquela clássica que favorecia o contorno dos objetos) tinha um alvo preciso. A nova geração opunha-se não só à racionalidade impessoal da Arte Conceitual, como também às poéticas, dominantes ao longo dos anos 70, que propunham a desmaterialização da arte e, conseqüentemente, um rebaixamento do fazer em nome da idéia. Em conseqüência os novos pintores concentraram-se numa fatura expressiva que valorizava a subjetividade e desprezava racionalismo inerente à arte clássica, neoclássica e geométrico-construtiva que, para eles, não permitiram aflorar as questões substantivas da pintura.A obra de John Nicholson floresceu nessa retomada histórica. Sua transformação até seu trabalho mais recente foi determinada pela ênfase no fazer e no processo dele resultante, assumido pelo artista desde seus primeiros trabalhos: após pintar as Paisagens do Rio, temendo que o domínio técnico se sobrepusesse à invenção, abandona, por volta de 1989, a tinta a óleo e passa a utilizar tintas para pintura em parede; entre 1994-95 substitui a figuração pela criação de formas abstratas livres; em 1999 passa a explorar a potência poética da geometria, sobretudo no que se refere à organização espacial do quadro. Finalmente, já em 2004, numa síntese de suas incursões pelo abstracionismo, produz uma série de dípticos que confrontam, necessariamente, uma tela informal a outra geométrica. O retorno à figuração devolveu à pintura de Nicholson não sómente sua marca geracional e a tinta à óleo, como inseriu seu trabalho na genealogia realista da chamada american scene, que marcou a arte americana das primeiras décadas do século XX . Seu expoente maior foi Edward Hopper, aluno de Robert Henri que fundara, ainda no século XIX, o grupo Philadelphia Realists que, contra o academicismo, valorizava a temática do cotidiano urbano. Na trilha aberta por esses pioneiros, passaram também, por exemplo, Richard Diebenkorn, cuja influência é reconhecida e assumida pelo próprio artista, e, numa certa medida, os Chamados Hiperrealistas.Entre os trabalhos atuais de John e o realismo da american scene, ou dela derivado,existe uma afinidade essencial: a forte presença de um olhar fotográfico materializado por meios pictóricos, ainda que artistas desta genealogia não partissem necessariamente da fotografia para executá-los. Nicholson,entretanto, baseia todas as suas telas recentes em imagens fotográficas por ele registradas. Ainda assim, sente-se nestas pinturas a presença sutil dos ambientes domésticos brasileiros. A janela de venezianas pela qual a figura feminina olha o exterior em A Janela no Inverno e na Manhã Ensolarada pertencem certamente a uma casa eclética do Rio de Janeiro do começo do século passado. A mesma sensação de familiaridade é deflagrada pelo piso de tacos de madeira clara e escura, dispostas em xadrez tal como aparece nas telas Antes do Banho e In the Sunlight ou pelas portas internas da casa que comunicam quartos com outros; sem falar no lugar destinado aos aparelhos de ar condicionado tapado com madeira, sob algumas das janelas. Tudo isso é reforçado por indicações concretas (móveis iguais, características arquitetônicas semelhantes etc.) de que, ao menos em parte dos trabalhos, estamos numa mesma casa.Por outro lado as figuras femininas de todos os quadros da mostra, embora sozinhas, não estão como as de Hopper imersas na solidão da incomunicabilidade. Seu isolamento é normal e necessário se considerarmos as circunstâncias que envolvem os atos de tomar banho, vestir-se e contemplar. Sua intimidade não foi violada por um olhar voyeur, mas partilhada por alguém que a ela pertence, o próprio artista. Há portanto nestas telas uma síntese das raízes americanas e do cotidiano brasileiro de John Nicholson. No entanto é importante reafirmar que tudo isso está a serviço do ofício de pintar. Espessas camadas de tinta ali estão não apenas como um contraponto da limpeza do papel fotográfico, mas para lembrar-nos que a pintura não deve ser reduzida as imagens que nos apresenta.(Fernando Cocchiarale)
Publicado em: novembro 11, 2006
Avalie este resumo : 1 2 3 4 5

Adicione aos favoritos & envie aos amigos

.