Nós cristãos esquecemos com muita frequência que a fé não consiste em
crer em algo, mas em crer em Alguém. Não se trata de
aderirmos fielmente a um credo e, muito menos, de aceitar cegamente «um conjunto estranho de doutrinas», mas de encontrarmo-nos com Alguém vivo que dá sentido radical à nossa existência.
O verdadeiramente decisivo é encontrar-se com a pessoa de Jesus Cristo e descobrir, por experiência pessoal, que só Ele pode responder de maneira plena às nossas perguntas mais decisivas, aos nossos anseios mais profundos e às nossas necessidades mais últimas.
Nos nossos tempos torna-se cada vez mais difícil
crer em algo. As ideologias mais firmes, os sistemas mais poderosos, as teorias mais brilhantes foram-se desmoronando ao descobrirmos as suas limitações e profundas deficiências.
O homem moderno, desiludido dos dogmas, ideologias e sistemas doutrinais, talvez ainda esteja disposto a crer em pessoas que o ajudem a viver e o possam «salvar» dando um sentido novo à sua existência. Por isso o teólogo K. Lehmann pôde dizer que «o homem moderno só será crente quando tiver feito uma experiência autêntica de adesão à pessoa de Jesus Cristo».
Causa tristeza observar a atitude de sectores católicos cuja única obsessão parece ser «conservar a fé» como «um depósito de doutrinas» que há que saber defender contra o assalto das novas ideologias e correntes que, para muitos, resultam mais atrativas, mais actuais e mais interessantes.
Crer é outra coisa. Antes de tudo, nós cristãos temos de preocupar-nos em reavivar a nossa adesão profunda à pessoa de Jesus Cristo. Só quando vivermos «seduzidos» por Ele e trabalhados pela força regeneradora da sua pessoa, poderemos transmitir também hoje o seu espírito e a sua visão da vida. Caso contrário, continuaremos a proclamar com os lábios doutrinas sublimes, ao mesmo tempo que continuamos a viver uma fé medíocre e pouco convincente.
Nós cristãos temos de responder com sinceridade a essa pergunta interpeladora de Jesus: «E vós, quem dizeis que eu sou?» (Cfr. Mc. 8,27-35).
Ibn Arabi escreveu que «aquele que ficou preso por essa enfermidade que se chama Jesus, não pode mais curar-se» . Quantos cristãos poderiam hoje intuir desde a sua experiência pessoal a verdade que se encerra nestas palavras?