Na Grécia Antiga, entre os primeiros filósofos que tentaram explicar
os mistérios do Universo, Heráclito dizia que
tudo muda em um constante
devir, nada permanece.
Mesmo quem não é filófoso sabe que o tempo passa e as estações do
ano vão e vêm. Primavera, verão e outono passaram e está chegando
novamente o
inverno. Outro inverno, pois, como dizia Heráclito, não
entramos duas vezes no mesmo rio.
Muitas analogias são feitas entre as estações do ano e a vida
humana. A primavera é fértil como a juventude. O verão é vigoroso como
a mocidade. O outono é a fase mais madura, não somos jovens, mas ainda
não somos idosos. Quando o vigor acaba, chega o inverno.
A natureza se renova. No ciclo das estações, depois do inverno, tudo
floresce e recomeça com a primavera. Se a analogia é verdadeira, também
não morremos. Como a natureza descansa no inverno dos rigores das
estações, também é necessário para nós o descanso que conhecemos como a
morte do corpo físico. Depois do inverno, renascemos na primavera da
vida, revigorados em um novo corpo.
Nem todos acreditam na reencarnação, mas a natureza tem uma
explicação lógica para as mudanças das estações. Geograficamente, as
estações do ano ocorrem devido ao eixo inclinado da Terra, que não
recebe a luz do sol de maneira uniforme durante sua rotação . Da mesma
forma, os movimentos da Terra explicam por que em um hemisfério é verão
e no outro é inverno.
Pela observação dessas mudanças e do passar do tempo, os antigos
sempre celebraram os ciclos da natureza e a importância das
transformações em suas vidas.
O mito grego que explica a alternância das estações do ano é o de
Perséfone, a jovem filha de Deméter, deusa das colheitas. Perséfone
colhia flores quando foi raptada pelo deus do reino inferior, Hades.
Deméter não se conformou com a perda da filha. Sua tristeza murchou as flores e secou os frutos das árvores.
Zeus pediu a Hermes, mensageiro dos deuses, que resolvesse a
situação. Mas Perséfone já estava casada com Hades, comeu romã, a fruta
que prende a pessoa que a come no reino infernal, e tornou-se guardiã
dos mistérios do mundo subterrâneo. Estava ligada a ele eternamente.
Hermes convenceu Hades a deixar que Perséfone ficasse uns meses com
a mãe e uns meses com o marido. Assim surgiram as estações do ano. A
terra é fértil na primavera e no verão, quando Deméter está com a
filha. Quando Perséfone volta para o marido, é tempo do inverno e do
outono.
Na Primavera e no verão acontecem as colheitas. No outono e no
inverno, pouco se colhe, a terra é preparada para as próximas estações.
Esse equilíbrio sempre traz a certeza de que a Primavera voltará. Fica
mais fácil suportar o inverno com a esperança da chegada da primavera.
Deméter e Perséfone foram cultuadas nos mistérios de Elêusis. Os
adeptos agradeciam a fecundidade da terra e as colheitas em rituais
secretos.
Apolo também era uma divindade adorada como protetor das colheitas e
seu mito se relaciona com o ciclo das estações. Como deus da luz,
levava o carro do sol pelo céu, determinando o dia e a noite. E a luz
também fertiliza a terra.
No inverno, Apolo se recolhia ao país dos Hiperbóreos, onde o sol
resplandecia o tempo todo. Na primavera, Apolo voltava para as festas
realizadas em sua homenagem. Os homens esperavam durante o inverno pela
luz de Apolo e por Perséfone, para que Deméter florescesse a Terra.
Embora o clima tropical não nos permita sentir uma diferença radical
do clima nos dias de inverno, a natureza dá prosseguimento à sua
ciclicidade. O sol se recolhe mais cedo e aparece pouco. A terra se
purifica e se prepara nesse recolhimento necessário. As
energias da natureza estão voltadas para dentro, pulsando, armazenando
força para a renovação, esperando o momento certo de florescer, nos
ensinando que existe o momento de reflexão sobre nosso interior também,
podemos digerir idéias antigas e plantar idéias novas.
Poema para o inverno
O vento do outono
abraça a nova estação,
que chega com sua
ordem de recolhimento.
Como em um rito,
novos rumos se fazem
no casulo dos dias
à espera dos ciclos
das estações.
No rastro das névoas,
os sonhos não nascidos
escondem-se.
A vida lateja no
cortejo de idéias submersas.
Palavras extremas
aguardam o movimento
de fuga no vento,
ninho das idéias.
Há um poema intacto
no caminho do tempo
que aguarda o inverno,
mas só renascerei
na primavera.