"Todas as vezes que estive entre os homens, regressei menos
homem" (Séneca, filosofo da antiguidade).
A cultura contemporânea
é muito sensível à dimensão social do
homem: estar entre os homens é essencial para se tornar homem. O homem não é uma ilha, mas sim um ser social.
Mas, se atendermos bem no sentido da expressão do filósofo, veremos que ele não é despropositado: chama a atenção contra a fácil alienação, provocada pela conversa barata contínua (inútil e sem sentido) que acompanha a convivência social; chama a atenção para a perda de sentido e unidade das nossas tarefas.
De facto, à noite, quando se apagam as luzes do espectáculo, quando a presença dos outros cessa de atrair e distrair a nossa atenção e ficamos sós, então aquela exigência pode ser advertida. A experiência da solidão e do silêncio pode tornar-se uma ocasião privilegiada para buscar autenticidade e coerência na nossa vida.
Há tempos, ao entardecer, passando no local do mercado duma cidade, reparei na sujidade e no vazio aí existente. Na véspera, fora a feira: muita gente, muito ruído, muitas barracas, muita agitação e confusão... Passada a feira, restou o vazio e a imundície.
O nosso coração corre o risco de ser como a praça do mercado: muita vida e muita agitação enquanto é dia; mas à noite, abandonada por todos, permanece deserta e um pouco (ou muito) suja.
As horas do nosso dia podem parecer-se a pérolas soltas de um colar cujo fio se rompeu.
As nossas palavras e gestos, considerados em si mesmos, aparecem-nos um pouco vazios, convencionais e inúteis. Sobretudo vêmo-los desligados: provocados mais pelas circunstâncias exteriores que pela liberdade do nosso eu mais verdadeiro e profundo (personalidade). As situações, as mudanças de humor, as companhias que mudam a toda a hora, fazem de nós aquilo que querem. Há uma falta de personalização naquilo que fazemos e dizemos.
A experiência desta divisão e dispersão da nossa vida está entre as preocupações que mais inquietam o homem.