Vivemos demasiado ocupados com o "aqui e agora" para preocupar-nos com o "mais além". Submetidos
a um ritmo de
vida que nos atordoa e escraviza, embriagados por uma informação asfixiante de notícias e acontecimentos diários, fascinados por mil atractivos objectos que o desenvolvimento técnico pôs nas nossas mãos, parece que não necessitamos de um horizonte mais amplo que "esta vida" em que nos movemos
Porque pensar "noutra vida"? Não seria melhor canalizar todas as nossas forças em organizar o melhor possível a nossa existência neste mundo? Não seria melhor esforçar-nos ao máximo em levar a vida que nos foi dada, agora, o mais humanamente possível e calar-nos a respeito de tudo o resto? Não será melhor aceitar a vida com a sua obscuridade e os seus enigmas e deixar "o mais além" como um mistério de que nada sabemos?
No entanto, o homem contemporâneo, como o homem de todas as épocas, sabe que no fundo do seu ser está latente sempre a pergunta mais séria e difícil de responder: o que vai ser de todos e de cada um de nós?
Qualquer que seja a nossa ideologia, a nossa fé ou postura perante a vida, o verdadeiro problema que todos temos de enfrentar é o nosso futuro. Que fim nos espera? O filósofo Berger recorda-nos com um profundo realismo que "toda a sociedade humana é, em última instância, uma congregação de homens perante a morte" .Por isso, é perante a morte precisamente onde aparece com mais clareza "a verdade" da civilização contemporânea que, curiosamente, não sabe o que fazer com ela senão ocultá-la de forma ascéptica e iludir ao máximo o seu trágico desafio.
Mais honrada parece a postura de homens como Eduardo Chillida que, numa ocasião, se expressou nestes termos: "da morte, a razão diz-me que é definitiva. Da razão, a razão diz-me que é limitada" .
É aqui onde temos de situar a postura do crente que é capaz de enfrentar com realismo e modéstia o facto iniludível da morte, mas fá-lo desde uma confiança radical em Cristo ressuscitado.Uma confiança que, dificilmente, pode ser entendida "desde fora" e que apenas pode ser vivida por quem escutou, alguma vez, no fundo do seu ser as palavras de Jesus: "Eu sou a ressurreição e a vida" .
Em jeito de conclusão, permito-me fazer duas citações do grande escritor e poeta Miguel Torga:
Ser incréu custa muito! É dia de Páscoa. O gosto que eu teria de beijar também o Senhor, se acreditasse! Assim, olho a fé dos outros em aleluia, e fico nesta tristeza agnóstica que faz da vida uma agónica aventura sem esperança de ressurreição .
(Texto escrito em 15 de Abril de 1979, em Diário XIII)
Com flores de rodoendro cor de fogo
Anuncio aos sentidos
O milagre
Da ressurreição.
E o Cristo vivo,em que se transfigura
A mais vil criatura
Que atravessa a praça,
É como uma graça
A mais da primavera.
Ah,quem pudera
Todos os dias
Olhar o mundo assim,repovoado
De fraternidade,
Quente de um sol desabrochado
Em cada pétala da realidade!
(poema escrito no dia 19 de Abril de 1987, não sei se em dia de Páscoa, mas claramente ao sol da Ressurreição)