Cassi era um jovem que não levava a vida a sério, causando apreensões a seus pais, mas
tudo fez para conquistar Clara dos Anjos que o amava realmente e não queria ver os defeitos que todos apontavam nele.
LIMA BARRETO tem o seu nome colocado na galeria dos maiores romancistas brasileiros. Ao analisar a sua admirável produção, Sérgio Buarque de Holanda diz que "a obra deste escritor é, em grande parte, uma confissão mal escondida, confissão de amarguras íntimas, de ressentimentos, de malogros pessoais que, nos seus melhores momentos ele soube transfigurar em arte. É essa espécie de refundição artrstica, o que realmente importa ou importa antes do mais no estudo de tal obra, o que de fato vai valorizar as idéias nela expressas ou a crítica social, onde apareça. Dizer isso não é dizer que uma obra literária deva julgar-se segundo padrões formais, uma vez que estes não são absolutos e não se podem reduzir ao peso e medida. Mas independentemente da presença de semelhantes padrões, a apreciação literária ou seja o discernimento de valores estéticos, irredutíveis embora a fórmulas rígidas, não precisa e não deve ser desdenhado em benefício de outros valores, que permitindo uma falsa impressão de objetividade, transcendem, no entanto, a esfera da literatura".
O autor de Recordações do Escrivão lsaías Caminha, Triste Fim de Policarpo Quaresma e tantos outros livros famosos, conta em Clara dos Anjos a história de uma pobre mulata, residente num subúrbio carioca, filha de um modesto carteiro, que foi criada em meio aos escrúpulos de uma família toda cheia de reservas e, no entanto, não escapou à conquista de um desatinado rapaz, um galanteador que se tornou o espanto de tantas mães zelosas da honra de suas filhas.
O Autor descreve os diversos tipos de maneira muito espontânea e focaliza os fatos em todos os seus pormenores, mostrando um Rio de Janeiro dos velhos tempos, transformando a sua pena em pincel de talentoso pintor.
Descrevendo um dos trechos do Rio daquela época, após demorar-se no aspecto das casas e das ruas, faz o seguinte relato:
"Mais ou menos é assim o subúrbio, na sua pobreza e no abandono em que os poderes públicos o deixam. Pelas primeiras horas da manhã, de todas aquelas bibocas, alforjas, trilhos, morros, travessas, grotas, ruas, sai gente, que se encaminha para a estação mais próxima; alguns, morando mais longe, em Inhaúma, em Caxambi, em Jacarepaguá, perdem amor a alguns níqueis e tomam bondes que chegam cheios às estações. Esse movimento dura até às dez horas da manhã e há toda uma população da cidade, de certo ponto, no número dos que nele tomam parte. São operários, pequenos empregados, militares de todas as patentes, inferiores de milícias prestantes, funcionários públicos e gente que, apesar de honesta, vive de pequenas transações, de dia a dia, em que ganham penosamente alguns mil-réis. O subúrbio é o refúgio dos infelizes. Os que perderam o emprego, as fortunas; os que faliram nos negócios, enfim, todos os que perderam a sua situação normal vão-se aninhar lá; e todos os dias bem cedo, lá descem à procura de amigos fiéis que os amparem, que lhes deem alguma coisa, para o sustento seu e dos filhos."
Este o retrato de um subúrbio carioca há algumas dezenas de anos atrás e de sua gente que o Autor analisa com acertada psicologia.
Falam pelo valor dos livros de Lima Barreto as sucessivas edições que vêm conseguindo através dos anos, agradando amplamente aos leitores de todos os tempos.